Milton Cardoso
Especial para o Correio de Itapetininga
Até o início da adolescência, Ivan Barsanti Silveira sempre foi muito reservado e teve poucas amizades. Nessa época, frequentava as salas de cinema e se dedicava aos estudos com afinco. Seu lazer preferido era ouvir a programação diversificada da Rádio Nacional, emissora do Rio de Janeiro.
O sonho de conhecer a capital fluminense, porém, ocorreu muitos anos depois, quando tinha 34 anos de idade. Entusiasta do Carnaval, assistiu in loco, entre 1984 e 1993, aos desfiles das escolas de samba e desfilou no tradicional sambódromo.
Em Itapetininga, participou, dos animados e concorridos carnavais de outrora. Afirma que os desfiles tiveram seu auge na década de 1950 “quando era realizado o desfile de rua com a participação de dezenas de blocos, cordões, alegres anônimos e a participação dos clubes (notadamente Venâncio e Recreativo) com ricos e luxuosos carros alegóricos devidamente ornamentados e significantemente temáticos”, recorda.
Antigamente “começávamos a ouvir as marchinhas em janeiro e já íamos pegando o gosto. Fiz amizade com as irmãs Miriam e Marilene Rabelo Orsi e entrei para o bloco carnavalesco Babo Grosso”. No final dos dias de folia, todos já pensavam nas fantasias do ano seguinte.
Ivan acredita que o gosto pela arte seja herança da família de seu pai, o dentista João Prado da Silveira, que era apreciador de música de várias nacionalidades, com exceção à música estadunidense, e um exímio dançarino. O patriarca frequentava semanalmente os bailes do clube Venâncio Ayres, local em que conheceu sua futura esposa, Pasquina Barsanti, em 1934.
A professora Pasquina não gostava de dançar e estava sentada no piso superior do salão do clube. João foi convidar uma conhecida dela para dançar, mas, ao vê-la, teve o olhar atravessado pela inquietude da natureza imprevisível do amor. Posteriormente se casaram.
Ela se aposentou após 38 anos de dedicação à profissão que tanto amava e que via como verdadeira missão. Essa paixão influenciou o filho Ivan na escolha da profissão. Em 1957, ele ingressou no curso de normalista na tradicional escola Peixoto Gomide. “O magistério me libertou, passei a ver um outro mundo”, reflete Ivan.
Convicto de sua escolha, ingressou no curso de pedagogia da PUC e depois se transferiu para a USP. A convivência no campus universitário lhe ensinou muito.
Na capital, lecionava em três escolas, mas, devido ao apego familiar, retornava todos os finais de semana à sua terra natal. Em um dos cômodos da casa em Itapetininga promovia encontros em plena ditadura militar com jovens intelectuais itapetininganos.
Além de participar ativamente dos carnavais e bailes nos clubes, Ivan sempre acompanhou outras opções culturais ofertadas na cidade. Com o falecimento de seu pai em 1978, ele retorna para Itapetininga. Concursado, torna-se diretor escolar em Guapiara. Posteriormente atua como supervisor de ensino até 1998. Aposentado, passou a lecionar filosofia na Associação de Ensino até o seu fechamento.
Convidado pelo publicitário José Rubens de Mello Leonel, Ivan fez parte da equipe da extinta SP Sul TV e comandou, durante dois anos, o Gente Como Agente, exibido às quintas com boa audiência.
Começou a escreveu seu único livro, A Porta Aberta, após assistir à minissérie Anos Dourados. A história escrita por Gilberto Braga acontece na mesma época em que o professor descobriu a amplitude do mundo. “Comecei a registrar memórias dessa época de forma ficcional. Com o incentivo de Roberto Soares Hungria e Margha Bloes consegui patrocínio para publicá-lo”. O romance foi lançado em 2008, numa noite de autógrafos no shopping da cidade.
Na imprensa escrita, começou no Jornal do Mercado, a convite de Alberto Isaac. Colaborou com o Tribuna Popular de 1992 a 1998 e, depois, substituiu o colunista Betho Ferraz da Folha de Itapetininga até 2006. Escreve para o Correio de Itapetininga desde a primeira edição do jornal, em 2005. Suas “quase” crônicas transparecem lembranças e impressões de uma Itapetininga sempre modificada.
Prestes a completar 85 anos, continua resoluto ao escrever de forma artesanal seus textos repletos de sensibilidade, de inteligência e das inevitáveis transformações da experiência cotidiana.














