Com sua escrita afiada, olhar atento sobre o comportamento humano e forte ligação com Itapetininga, Alberto Isaac segue como um nome importante da história local, mesmo após seu falecimento, há dois anos, em 8 de junho de 2023.
Escritor, jornalista, professor e comerciante, atuou em diversas áreas e deixou contribuições relevantes para a cidade. Um exemplo é o resgate de um de seus antigos textos: “Amor, Poesia, Felicidade, Batata etc.”, publicado originalmente em novembro de 1949 no jornal O Liberal (Órgão do Grêmio Estudantil Fernando Prestes), e que volta a circular, reafirmando o valor de preservar e revisitar produções históricas.
Confira a crônica completa a seguir:
Menina bonita. De olhos verdes (eh! Palmeiras). Perigosamente a Lauren Bacall. Que pululem de lá pra cá. Que nem na poesia do Nhô Bentico. Eu vou pedir sua mão ao senhor seu pai. Ele zangado. A resposta vai ser contra. Mas não importa. Nós fugiremos. Idêntico a romance
antigo. De 1850. Arranjarei uma casinha pequenina. Lá no alto da colina. Com um coqueiro ao lado. Um, não dois. De cada lado um coqueiro. A simetria é um fato comprovado. Na porta eu colocarei uma gaiola moderna. Com um sabiá dentro. Que cante mais bonito do que aquele de Gonçalves Dias. Necas de rádio. Idem de vitrola. Só música de sabiá. É mais romântico. É mais distinto.
Você fará tricô. Eu versos. E deles viveremos. De madrugada, comeremos sonetos. Ao meio-dia, poemas. De tardezinha versos. E a vida será uma eterna poesia.
De quando em vez eu lhe sapecarei algumas frases candentes de amor. Muito melífluas. Com acompanhamento de três ou oito suspirinhos de praxe. Você ficará rubra. De olhos pudicamente baixos. Mais cinematograficamente ainda. Ou me xingará de vários nomes feios.
Para modificar o menu, se você quiser, poderá vender a algum otário, as blusinhas de lã, vermelhas, verdes, amarelas, roxas e cinzas, tricoteadas nas suas horas de descanso, E, com os cobres, comprar batatas brotadas. Eu plantarei as acima referidas. Você as colherá. Eu as descascarei. Queimaremos oito livros de poetas clássicos, dois dicionários de Cândido de Figueiredo, daqueles descomunais e quatro antologias nacionais, para cozinhar batatas, o molho há de ser rimas ricas. Temperado com fechos de ouro. Do resto, faremos bolinhos. E eu sairei pelas ruas, gritando em voz sonora, eufonicamente: Olhem os bolinhos feitos em molho de rimas! Temperado com fechos de ouro. Quem vai querer os bolinhos? Feitos de poesia.
Depois, com o dinheiro dos bolinhos, editarei o meu livro de versos. Sucesso absoluto. Há de surgir muita gaita. Ficarei milionário. E comprarei para você, um vestido todo verde. Feito de pedaços do mar. Com rendas de ondas autênticas. Cheio de periquitos de todas as espécies, Para mim, um terno cinza, uma gravata também. Que seja verde. Cor de esperança. Cor de seus olhos, perigosamente verdes. Ao senhor seu progenitor, farei presente da Via Lactea. Ele montará lá, uma usina de laticínios. Leite marca Saúde. O melhor da praça. Queijos. Queijinhos. Queijões. Gorgonzola. Artigo de primeira qualidade. Ver para crer.
Mais tarde, quando o meu livro atingir a milésima edição, serei multimilionário. Mas jogarei fora o dinheiro. Com uma pose roquefélica. E ficaremos pobres outra vez. A casinha da colina, será então ainda mais bonita do que dantes. Com os competentes coqueiros. Darei bastante alpiste ao sabiá. Para ele cantar um samba à la Jorge Veiga. Belamente. Sentidamente.
Melancolicamente. E outras coisas em ente.
Você tricoteará novas blusinhas de lã. Verdes. Azuis. Amarelas. Vermelhas. Eu novos versos. Que serão digeridos no almoço. Na janta. Na ceia. Mas, se você quiser variar o prato, poderá vender as novas blusinhas.
E eu, rumo ao campo, novamente irei plantar batatas…














