OPINIÃO
Em meio à mobilização de pais, responsáveis e do conselho escolar contra o possível encerramento das atividades da EMEIF Professora Zilá de Freitas Marão, após a condenação do prédio pela Defesa Civil, o Correio publica abaixo um artigo de opinião assinado por Patrícia Cunha, ex-diretora da unidade. No texto, a educadora relembra a história da escola, experiências vividas por alunos e profissionais ao longo de mais de quatro décadas e reflete sobre os impactos que a perda da unidade pode representar para a comunidade do Jardim Mesquita.
Por Patrícia Cunha (ex-diretora da EMEIF Zilá)
A Escola Municipal de Ensino Infantil e Fundamental Professora Zilá de Freitas Marão, ousimplesmente EMEIF Zilá, nasceu para marcar as vidas de todos que por ela passaram. Foi assim comigo, e com muitos outros adultos e crianças.
O livro da história desta escola começa a ser escrito na sua fundação, em 1982, ainda com o nome de EMEI São João, funcionando em casa alugada até ganhar prédio próprio e receber o nome da Professora Zilá em 1994. Nesse período só recebia crianças da educação infantil. De lá pra cá, a escola ganhou capítulos importantes, escritos pelas modificações propostas pelo sistema escolar, como a transposição das crianças de 6 anos da educação infantil para o ensino fundamental e o pioneirismo do atendimento educacional especializado (AEE) que dava seus primeiros passos quando a escola já se dedicava à inclusão dessas crianças.
Passaram por suas páginas inúmeros atores dedicados a imprimir felicidade às suas próprias vidas e a de outros que por ali passassem.
Lembro do professor que despertava a autoconfiança das crianças espalhando sobre suas cabeças pó de pirlimpimpim que sua amiga, Tinker Bell, enviou especialmente para torná-los mais inteligentes. Lembro também de professoras chorando de tanto amor ao ouvir as doces palavras de carinho surgidas de conversas com as crianças, ou ao ver aquele menininho que no início do ano só chorava, dando show na apresentação de fim de ano, demonstrando habilidades socioemocionais necessárias para a vida em pleno desenvolvimento. Lembro ainda daquela professora que chegava ao fim do dia exausta de tanto rolar, correr, pular e gargalhar com a turma dos pequenos mais miúdos, aqueles que não param um segundo (lembram do mini-maternal? Então, eles mesmos). Crianças espertas que se sentiam o centro do universo e choravam quando tinham que dividir a atenção da “pro” com outro serzinho que se sentia da mesma forma. Ao final do ano, o domínio e conhecimento das potencialidades corporais da turminha era algo robusto. E a professora que vinha cada ano com uma fantasia mais linda do que a outra para encantar crianças e adultos no Festival do Livro? Um evento maravilhoso que acontecia na Zilá, mas que é assunto pra outra conversa. Não bastasse a sua produção, trazia as filhas tão lindamente fantasiadas quanto ela, para dançar e encenar histórias que ela contava. Momentos que contribuíram muitíssimo para que as crianças, por meio do fantástico mundo das histórias, aprendessem a dinâmica da vida que se constitui primeiro no fortalecimento de vínculos e emoções.
Também passou por essas páginas a professora que entrava na sala falando com a turma sobre os acontecimentos do cotidiano como se estivesse conversando com os melhores amigos. E aquela que era muito séria, mas virava uma fera com quem se atrevesse a falar alguma coisa que desvalorizasse minimamente um membro de sua “equipe” (leia-se turma, alunos, crianças ou bem mais precioso). Uma dessas mestras também fez uma plantação de crianças. Para alegria delas que adoram brincar com terra, e desespero de algumas mães que receberam filhos enlameados ao final do dia.
Houve muitas outras páginas neste livro, escritas por anjos, escondidos sob a pele de auxiliares de educação que assumiram papel de zelar pela saúde, integridade e bem estar de quem precisa de mil olhos vigiando; as serventes que dedicavam o tempo livre para conversar com as crianças, só pelo prazer de ouvi-las contar suas histórias; e as merendeiras que iam muito além de alimentar corpinhos famintos, alimentavam também seus desejos, descascando maçãs e peneirando o caldo do feijão amassadinho só para ver seus olhinhos brilhando com o prazer de comer bem. Alguns diziam ser pura “frescura”. Outros, como eu, consideravam puro cuidado. Nenhuma das opiniões afetou o carinho dos gestos.
E quando as mães não queriam ir embora da escola? As janelas pareciam um varal de mães, penduradas para ver seus bebês crescidos lá dentro da sala de aula, e aproveitar o quanto podiam (ou quanto as professoras e professores deixassem) o início de sua vida social fora da família. Nesses dias não eram apenas as crianças que choravam. Tinha aquelas que fechavam a escola. Ficavam por lá até o último instante aproveitando a sombra mágica das árvores, que de tão amplas, traziam frescor para todo o pátio, vendo a alegria dos filhos se divertindo com os amigos e desenvolvendo uma boa conversa com outras mães a ponto delas também se tornarem amigas. Tudo proporcionado pelo espaço escolar aberto às famílias da EMEIF Zilá. Ainda mantenho contato com algumas dessas mães que se tornaram tão queridas, a ponto de me tornar comadre de uma delas! Com outras, o encontro é nas férias pra passar uma tarde juntas, com as crianças já crescidas, que amam lembrar “do tempo na Zilá”. Vejam só quanta história!
O melhor de tudo, sempre foi ver o amor que as crianças, protagonistas dessa história, sempre tiveram pela escola. Amor expresso pelo desejo de estar nela até nos finais de semana, quando ela não funcionava; amor transformado em lágrimas quando a brincadeira precisava ser interrompida porque já estava na hora de ir embora; amor transformado em abraços calorosos a cada entrada da diretora na sala de aula; amor que transformou a criança, que um dia foi aluna, em estagiária, que tem como meta de vida dar aula ali, pra transformar em pura alegria a infância de outras crianças que por ali passarão.
Nossa… quanta lembrança boa! Quanto aprendizado junto. Que BOM fazer parte dessa família que é a EMEIF Zilá!
É possível virar a página e fechar o livro? Deixar acabar? Desmembrar o livro na tentativa de fundir sua história à de outras unidades escolares?
Escola é muito mais do que prédio, do que móveis, material, ou sala de aula. É muito mais que funcionário e aluno. É HISTÓRIA de VIDAS. Escrita por muitas mãos. Um coletivo de momentos. Alguns ruins, difíceis sim, porque a vida não é um mar de rosas e aprendemos também com a tristeza. Mas é a NOSSA HISTÓRIA. Escola é feita de memórias, que fazem a gente sorrir quando lembra e que aquecem o coração. Escola não se resume a conhecimento e ensino. Escola é história viva. Desmembrar a Escola é o mesmo que espalhar as páginas de um livro, não é um simples trancar as portas e derrubar paredes. Encerrar a história da EMEIF Zilá é desprezar a história de uma comunidade inteira.
Na TERRA DAS ESCOLAS, não é meio incoerente deixar de investir em manter uma escola aberta?














