Aquela casa

Alguns anos atrás andava eu pela rua Bernadinho de Campos, quando ouvi um “psiu”. Voltei-me e quem me chamava era meu colega de ginásio, da primeira série ginasial (hoje: sexta série do ensino fundamental) no então “Ginasinho” na Silva Jardim, próximo dali. Isto em 1952. Era José Carlos de Mello Moura, de tradicional família itapetiningana, então residindo em São Paulo onde coordenava um cartório. O ano desse encontro foi em 2005. Cumprimentamo-nos e ele convidou-me para visitar uma vistosa casa na mesma rua, casa está adquirida por José Carlos há então pouco tempo e que estava em reforma. Aceitei imediatamente. A casa: fazia muito tempo que não entrava nela. A morada que pertenceu ao casal Ernesta (Xavier Rabelo) – Júlio Orsi, que eram os grandes anfitriões dessa cidade nas décadas de quarenta, cinquenta e parte de sessenta.

Muitos e muitos itapetininganos, até alguns ilustres, hoje, que frequentaram o lar de Ernesta e Júlio, sentem uma enorme saudade dos momentos de felicidade que passaram lá. Ernesta, mulher dinâmica, moderna recebia ao lado do marido Júlio, diversos grupos sociais sem nenhuma distinção de classe social. A juventude estudantil da época ilustrava-se lá com saraus, conversas, bailes (houve um com orquestra, vestido longo, smocking, inclusive).

Os filhos: Mirian, Mario Celso, Marilene e Marcio seguiram os pais e eram rodeados de amigos. Naquele lugar surgiram ideias que, aplicadas, produziram festas inesquecíveis como o “Dia das Mães” que Ernesta realizava no Clube Venâncio Ayres e a memorável “Festas das Nações” no mesmo clube. E o que dizer do bloco carnavalesco “Babo Grosso” inspiração de Ernesta – Júlio que encantou gerações durante anos pela sua animação, temas escolhidos e fantasias. Ernesta foi também durante anos madrinha do “Clube 13 de Maio” e “Tiro de Guerra”.

Quando, naquele ano, Zé Carlos de Mello Moura adquiriu a residência da rua Bernadinho de Campos sabia que estava tomando posse de um patrimônio social e cultural dessa cidade. Resolveu reforma-la, mas sem derrubar nenhuma parede, sem mexer no chão da construção original de (1951 – 1952). José Carlos mandou pintar as paredes com as mesmas cores vivas originais e preservar os afrescos dessas mesmas paredes como Ernesta – Júlio gostava.

José Carlos (de Mello Moura) sentia-se orgulhoso de sua aquisição pois, como bom itapetiningano sabia que o prédio tinha uma bela história. Não era simplesmente uma casa mas aquela casa.

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