As 253 linhas que ligam Itapetininga

Por: Mayara Nanini

Dos 253 anos que Itapetininga comemorou em 05/11, podemos dizer que metade teve calcado em seu solo a malha ferroviária.
Em torno se 1894 (chegada do trem de lastro) fomos presenteados com a ferrovia e, a partir disso, diversas histórias ganharam vida.
Muito se fala nos trens de outros Países e o quanto tal meio de transporte é utilizado – até mesmo por brasileiros turistas. Entretanto, quase nada é dito ou demonstrado sobre o mesmo meio de transporte de nossa cidade – muito embora ele tenha feito Itapetininga crescer e respirar novos horizontes. É exatamente o que nos conta Igor Matheus Santana Chaves, arquiteto, pesquisador, planejador territorial, professor e grande amante da nossa linha férrea, ao citar que, para sua pesquisa, inexistia material hábil de suporte. Foi preciso iniciar uma pesquisa, com aporte de busca por dados, documentos e entrevistas para, só assim, ter o conteúdo criado por ele. Ainda mais pelo fato do acervo da ferrovia ser abandonado e não se ter vestígios de como e onde pesquisar os registros.
Podemos dizer que Igor é um grande idealizador da cultura local, ainda mais quando assunto se restringe ao poder urbanístico da linha férrea. Como bom estudante de arquitetura, se apaixonou por urbanismo. Destino ou não, fez estágio da Secretária de Trânsito de Itapetininga, prédio que abrigava a antiga Sessão Ferroviária. Entre idas e vindas do trabalho, buscava sempre o caminho que todos diziam para evitar: “o da linha férrea”. Não tinha intenção de contrariar a maioria, mas era no silêncio da história que se sentia acolhido. Talvez seja, entre uma dessas visitas, que os vestígios do passado olharam para ele com ternura e o escolheram para retratar tudo o que essa malha ferroviária representou em nossa linha temporal. Seu livro “O Legado da Estrada de Ferro Sorocabana em Itapetininga” traz a memória viva de como essa inovação se eternizou na cultura do povo Itapetiningano.
E, se tratando de cultura, podemos dizer que a nossa antiga estação é um patrimônio ímpar e valioso. Igor, nosso mestre na questão, reforça o poder cultural da linha férrea: “Associo a cultura da malha ferroviária, como parte do território. Cultura é a manifestação de uma população e suas diversas formas linguísticas, culturais, linguagem, artes e memória. E, quando falamos de memória, impossível não associar à malha ferroviária, já que ela faz parte da construção do nosso próprio território. A partir dessa ideia, de como as coisas se conectam, não tem mesmo como desassociar da cultura. Quando você se debruça sobre o estudo da ferrovia, percebe que a cultura está no desenho do território que expande, na chegada do imigrante que traz outra forma de vida e costumes, na materialização do tempo que muda, no esquecimento – que é interessante no tempo atual, e muito proposital – na chegada das escolas, na sanitização da cidade, nas casas construídas para os ferroviários, na oferta de trabalho, no esporte, no movimento sindical com contribuição de direitos conquistados na Sorocabana, melhoria da infraestrutura urbana, indústria como a de tecelagem e outras contribuições’.
Hoje, não se vê mais a ferrovia como antigamente, mas o que fica é o anseio por sua valorização. O pesquisador, ainda ressalta que a tem um sonho particular: “A linha ferroviária é importante para Itapetininga no ponto de vista material e imaterial. Muito dela ainda existe, ainda mais na memória das pessoas. Falar de ferrovia é notar que todos querem que ela seja preservada. Minha visão de futuro é que ela seja parte de um roteiro turístico estadual. O turismo em Itapetininga pode ser mais investido, uma vez que é fonte de renda, economia e cultura. Desejo muito que ela volte, até mesmo como meio de transporte, já seria de grande valia para quem trabalha em outras cidades ou ainda quer desfrutar de uma viagem calma, que se pode observar a paisagem, desafogando assim as outras vias de tráfego urbano”.
A estação ferroviária foi cenário de novela (Éramos Seis). Era o liame da antiga e velha geração. O primeiro emprego de grandes nomes. Foi tudo na vida de quem nunca teve nada e o calor no coração daqueles que se reuniam à sombra do guarda-chuva, para ver a chegada de bispos, políticos ou outras autoridades. Pode-se dizer que era o campo de entrada de pessoas. O canal de curiosos que gerava maior expectativa.
O novo trouxe euforia e sede por mudanças. A cidade precisou abrigar uma nova história e se estruturou para isso, trazendo vida nova para uma maioria que nada tinha. Trouxe escola, imóveis, revitalização de ruas, empresas e uma nova perspectiva.
O desejo para mais esse mês de aniversário, é que a história da ferrovia seja o símbolo da “tradição, esperança e do hino à vida”, como forma de motivar um povo que, por vezes sente que nada caminhará diferente.
Houve um tempo em que uma cidade que ainda engatinhava cresceu às pressas e de forma “dadivosa, gentil e fascinante”. Da janela era possível ver sorrisos que se abriam pela chegada e olhos marejados de saudade diante da partida. Mas, no núcleo, existia uma energia pura que vibrava de forma única, pelo crescimento da cidade, em decorrência dos reflexos daquelas janelas que corriam sobre o tempo.
Dessa forma, a cultura da linha férrea, nos leva, de forma incontestável, para 253 anos de linhas que marcam uma luta, aprendizado e esperança. Que essa história nos sirva de motivação e inspiração para que os próprios jovens percebam o potencial de nosso Município. Afinal, são as pessoas que propiciam a mudança, a partir dos sentimentos que a cercam.
Algumas memórias se eternizam na vida de quem viveu e são transformadas em histórias na vida dos mais novos. Ainda que sejam encontrados alguns poucos registros que recordam a lembrança do período onde ela esteve ativa, é de suma importância falar sobre o tema, para alimentar as lembranças quase esquecidas. Como reforça Igor, “Talvez a ferrovia esteja dentro daquela velha frase: o que esquecemos de lembrar e o que lembramos de esquecer”.
Só assim será possível mensurar que o remanescente do que fez parte de uma “novidade”, mesmo recoberto por pó, precisa de nós para ser memória para as próximas gerações.

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