Coração Abatido

Um dia, quando me achava em São Paulo, na Igreja Presbiteriana da Penha, ocorreu-me um fato curioso. Sentei-me no último banco do lado esquerdo de quem entra. A igreja é grande e havia, na época, pois tudo muda, quatro fileiras de bancos. Uma do lado direito e uma do lado esquerdo e no meio da nave duas. Do meu lado estava um homem alto, barba preta, cabelos bem penteados e de terno. Lia Becherit ou Gênesis e já estava no capítulo três, onde se encontra a primeira profecia da vitória de Cristo sobre o inimigo espiritual da alma humana. Como ele não sentiu a minha presença, fiquei calado. Fechei os olhos e orei, pedindo para que Deus iluminasse o pregador e que as verdades da Bíblia tocassem o meu coração angustiado. Sim, caro leitor, o meu coração estava abatido, triste e, como disse Salomão, “um coração triste, abate o espírito”. (Prov. 15:13)
Li de soslaio, na Bíblia do homem de barba preta, a pena divina: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar. (Gên. 3:15) Resolvi pegar a minha Bíblia e li o capítulo inteiro. O texto fora do contexto, para quem não está acostumado com o livro sacro, fica incompleto, porém dentro da narrativa, torna-se inteligível e interessante. O capítulo três narra a queda do homem e a penalidade divina. Primeiro Deus condenou o tentador, depois a mulher e por fim o homem. Um porque tentou, outro porque se deixou tentar e o terceiro porque se deixou enganar. Ninguém ficou isento da penalidade.
A serpente, que foi hospedeira do demo, foi condenada a rastejar sobre o seu ventre e comer pó durante todos os dias de sua vida. Satanás, o anjo das trevas, seria ferido na cabeça e derrotado para sempre no lago de fogo e enxofre. A mulher daria à luz os seus filhos com dores e o seu desejo seria para o seu marido. O homem comeria o seu pão com o suor do seu rosto. Até a terra que viu a queda foi castigada, pois produziria cardos e abrolhos. Notei que a penalidade não foi tríplice e fiquei meditando, com os olhos parados na cruz, iluminada e suspensa na parede, atrás do púlpito.
Olhando para a cruz vazia, lembrei-me do escritor brasileiro Júlio Ribeiro que traduziu o hino de F.J.Crosby: “a tremer ao pé da cruz, graça, amor achou-me, matutina estrela, ali, raios seus mandou-me.” Nos braços da cruz notei o comprimento do amor divino e nas outras partes a altura e a profundidade.Voltei os meus olhos para o texto que lera e observei que não é a mulher quem pisa na cabeça de Lúcifer, mas o seu descendente,o seu filho. Verifiquei tudo isso fazendo paralelos aqui e ali e que não é Maria , a virgem, a bem aventurada, Mas Jesus, Filho de Deus encarnado. É ele o Emanuel, Deus conosco. Jesus é o verbo eterno que se fez homem para salvar o seu povo.
Depois de tudo isso, o culto começou, mas eu já estava alegre, feliz e contente. Descobrira o mistério da redenção. No final da cerimônia fui abraçado e até beijado por irmãos que há muito tempo não os via.

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