Quando um bebê nasce, nasce também, junto com a mãe, um mar de dúvidas. Em meio ao caos da rotina – ou falta dela – é difícil perceber qual é o momento certo para estimular. É tanta roupa para passar, louça para secar, coisas para pensar, culpas para processar e um mundo novo para conhecer.
Para a neuropsicopedagoga Giulia Kian, 26, o universo em meio às crianças sempre esteve presente. Aos 18 anos, enquanto atuava como Au Pair (nos EUA), cuidou de quatro crianças menores de seis anos e fez um curso livre de desenvolvimento infantil. A partir de então, passou a se especializar na área e hoje é neuropsicopedagoga supervisora ABA (Análise do Comportamento Aplicada). Sua trajetória só reforçou o enorme desejo em ser mãe.
Em 2025, um mês após seu casamento, recebeu a notícia da gravidez. José nasceu e, naturalmente, ela passou a aplicar seus conhecimentos sobre desenvolvimento infantil. Ao compartilhar sua rotina no Instagram surgiram comentários de que ela deveria ser menos terapeuta e apenas mãe.
A verdade é que Giulia é mãe e profissional e não há como separar seus dois lados. Segundo ela, não se trata de criar expectativas quanto a aprendizagem do filho, mas de oferecer oportunidades para que as habilidades se desenvolvam por meio da brincadeira: “Eu me atento ao mês que ele irá entrar e o que precisa realizar naquele período. A partir disso estimulo essas pequenas habilidades, como por exemplo, acompanhar objetos com o olhar. Logo, brinco de caminhar com um patinho de um lado para o outro, enquanto canto uma música sobre patinhos”, relata.
Durante a entrevista, Giulia destacou um dos grandes mitos da primeira infância: a ideia de que “cada criança tem seu tempo”. “Existe um período que cada coisa deve ocorrer e se isso ocorre muito antes ou muito depois, será necessário avaliar o índice de prejuízos. Deverá iniciar o quanto antes uma intervenção (antes mesmo do diagnóstico final). Afinal, o estímulo precoce gera melhores resultados”, afirma. Ela lembra, ainda, que a tabela dos Marcos do Desenvolvimento pode ser encontrada na caderneta de saúde fornecida pelo hospital.
Sobre o tema, é importante destacar que estimular não significa esperar grandes conquistas, mas aprender a vibrar e comemorar os detalhes. Às vezes a família espera grandes marcos, quando, na verdade, o desenvolvimento acontece em pequenas evoluções. O primordial é brincar com um olhar atento e acolhedor.
Questionada sobre o impacto da internet nos estímulos, Giulia faz um alerta: “Na internet encontramos várias ideias de brincadeiras que estimulam os pequenos. Ela pode ser uma ferramenta muito poderosa, mas também é um desafio enorme. Quando vemos algo sobre desenvolvimento – principalmente dicas de internet e vídeos dos marcos de outras crianças – e nos questionamos se nossos filhos não praticam aquele Marco, é interessante voltar nossos olhos para o fato de que nada se faz sem criar vínculos”.
Ela reforça que antes da proposta de estímulo, a presença se faz necessária: “A minha presença deve ser reforçada para meu filho. Ele tem que querer fazer um bolo comigo, para assim desenvolver a habilidade motora de mexer as mãos, por exemplo. Tudo isso tem que ser mais divertido do que ver TV. Se meu filho estiver com cólica, não vou forçar nada. Por qual motivo irei estimular se meu filho está chorando sem parar? Vou é dar colinho e acalmá-lo”.
Outro ponto citado é o de que no passado tínhamos mais acesso às atividades manuais e criativas. Contudo, é preciso observar a necessidade e personalidade da criança, atreladas aos marcos do desenvolvimento. Manter essa abordagem se faz necessária para despertar o interesse e desenvolvimento natural da criança. Importante também evitar comparações e manter o equilíbrio das atividades dos filhos. Às vezes até o silêncio e a solitude são necessários para o autoconhecimento e desenvolvimento.
De todo o narrado por Giulia, é preciso reconhecer que o objetivo do estímulo não é criar gênios, tampouco aumentar cobranças ou culpas. Estimular é, acima de tudo, estar presente. É fortalecer os vínculos, observar, brincar, acolher e oferecer oportunidades para que a criança se desenvolva de forma saudável. Não se trata de aplicar métodos rígidos ou uma lista de exercícios diários a um bebê de 1 mês, mas, de exercer o cuidado com amor, compreendendo que a primeira infância, precisa, sobretudo, de presença.
E, para reforçar a necessidade das experiências na primeira infância, uma frase da escritora Lya Luft, traduz com precisão o tema: “A infância é um chão que a gente pisa a vida inteira”. Afinal, o adulto de amanhã está formando o solo de suas raízes emocionais e psicológicas no hoje.
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