Intervenção militar

Não são poucos os brasileiros que clamam por uma intervenção militar, e também não são poucos os que abominam tal ideia.
No imaginário de grande parte da população, o período sob mando militar seria caracterizado pela ordem, sem distúrbios sociais, e com valorização dos valores básicos da sociedade.
O velho sonho de ver sumariamente varridos da vida pública corruptos e outros que alugam mandatos, anima e dá esperança a multidões de brasileiros.
A intervenção militar pode ser iniciada pela simples deposição de autoridades, com uso da força ou simplesmente seu aceno. Tomar o poder não é difícil, ao mais forte ou melhor armado.
O problema começa nas medidas iniciais dos revoltosos. A romântica ideia de prender bandidos, julgá-los e sentencia-los sumariamente, tornando-os inelegíveis, exige a edição de textos legais que quebram todo o ordenamento jurídico, iniciando um período de exceção, onde sempre figuram como vítimas as garantias constitucionais da cidadania.
No imaginário popular, bastaria depor, prender, convocar eleições e retornar ao quartel. Santa inocência !
Militares possuem aguçado senso de obediência e hierarquia, além de formação cultural valorizadora da noção de pátria, costumes e tradições, ingredientes raros na atividade política. As cúpulas são compostas por estrategistas natos, com profundos conhecimentos de geopolítica.
Na definição dos cargos e providências, e principalmente no dia-a-dia da administração, surgem questões de conveniência e convivência políticas, que não encontram orientações nos manuais da caserna. Como seres humanos que são, os militares também estão sujeitos a caprichos e sonhos de poder e prestígio pessoal, iniciando o grande dilema do tempo necessário à devolução segura do poder aos civis.
Não sendo super-homens, também estão sujeitos aos atrativos do poder, inclusive práticas corruptas e clientelistas, tão maiores quanto maior a permanência no poder. As características da obediência e hierarquia tendem a dificultar o respeito e a aceitação de argumentos e manifestações contrárias, gerando clima indutor de censuras.
Os militares tendem a defender tradições e culturas, assumindo as cores do poder pátrio. No Brasil, são verdes, em Cuba vermelhos.
Os militares são moldados e treinados para o cumprimento de rotinas e missões constitucionais, não para gerir toda uma nação. Podem, e devem intervir, legal e legitimamente, em casos de quebra da ordem constitucional ou grave comoção.
A intervenção militar, tal qual clamada por alguns setores da sociedade, é na verdade um golpe de Estado, e, aplaudida ou não, o início de um regime de exceção, popular ditadura.
Militares brasileiros ainda amargam as memórias do período em que ocuparam os poderes da república. Os aliados civis da época foram, aos poucos, sendo esquecidos.
Existe, por aí, a estranha versão de que nenhum brasileiro comportado teve problemas com as autoridades, à época. São, contudo, inúmeras as versões de brasileiros que acabaram torturados e mortos, pelo simples fato da discordância, ainda que pacífica.
Definitivamente, a intervenção militar não é a solução que queremos.

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