O Brasil não era só rock and roll

Certamente que há um vazio cultural no Brasil devido as terríveis pandemias, tanto a sanitária como a política (esta, insuportável). Mas, historicamente desde a década de 1970, no século passado, não surgiram mais movimentos (culturais) como: a Semana de Arte Moderna de 1922 como aconteceu na cidade de São Paulo em fevereiro daquele ano e que mudou a face artística do Brasil, como na literatura, pintura, música, poesia, entre outras artes, surgindo, depois disso, um novo Brasil, autêntico, bem mais livre de influências estrangeiras. Na literatura brasileira o último grande movimento foi o da Geração Modernista de 1945. No cinema brasileiro, os filmes do diretor Nelson Pereira dos Santos com assuntos reais, buscando um neo-realismo do tipo italiano. Entre os filmes de Nelson destaca-se “Rio 40°” (1955), “Rio Zona Norte” (1957), “Memórias do Cárcere” (1980), entre outros; Também no Cinema Novo de Glauber Rocha como “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1974), “Terra em Transe” (1967), ambos aclamados nos sérios festivais do cinema europeu. Antes, tivemos os carnavalescos da Atlântida, no Rio de Janeiro, com Oscarito, Grande Otelo, famosos cantores do rádio assim como os filmes de Mazzaropi; importantes no sentido de, mesmo em tom farsesco, colocar o homem brasileiro comum nas telas, ocasionando recordes de bilheteria em todo o país. Tivemos também um período marcante na cinematografia brasileira, na década de 1950, quando houve a tentativa de industrialização do cinema nativo (como aconteceu em Hollywood, USA) com o surgimento da Companhia Vera Cruz, em São Bernardo do Campo, São Paulo, financiada pela elite paulista, onde surgiram filmes como “O Cangaceiro” e “Sinhá Moça”, entre outros.

O grande auge da radiofonia brasileira foi nas décadas de 1940 e 1950, com as formidáveis rádios: Nacional (com um “casting” de 500 artistas),  Tupi, Mairink Veiga, todas do Rio de Janeiro e a Record e Tupi, em São Paulo com programas de estúdio e auditório apresentando cantores, humoristas, rádio-teatro, grandes orquestras, programas esportivos e de informações. Muita seriedade no ar. Hoje, com algumas exceções, o rádio brasileiro, tornou-se um enorme “vitrolão”. Na televisão tupiniquim, nos canais mais assistidos, havia o predomínio da autêntica música popular brasileira, no horário nobre como os lendários festivais da MPB na Tv Record (1966, 1967 principalmente) e as grandes novelas da TV Globo, brasileiríssimas como “O Bem Amado” e “Gabriela” (embora algumas continuem ótimas, neste século, como a recente “Éramos Seis”).

Como estamos discutindo movimentos culturais no Brasil, no teatro, em 1943 o grupo Novos Comediantes, no Rio produziu o clássico “Vestido de Noiva”, de Nelson Rodrigues (que mudou a cena brasileira). Em 1948 até o início da década de 1960, surge o Teatro Brasileiro de Comédia, na rua Major Diogo, na Bela Vista, em São Paulo também apoiado por empresários paulistas e com artistas que se tornaram notáveis como: Cacilda Becker, Walmor Chagas, Fernanda Montenegro, Tônia Carreiro, Sérgio Cardoso, Leonardo Villar, Paulo Autran, entre muitos outros. Havia um grupo estável e estudioso de grandes dramaturgos nacionais e internacionais. Em 1958 surge o Teatro de Arena, na Consolação, em São Paulo onde Geanfrancesco Guarneri estreia com seu “Eles não usam black-tie”, quando o homem brasileiro real e de classe econômica inferior surge no palco.

Neste mesmo ano, 1958, (que é considerado “dourado”) aparece, no Rio, a bossa-nova, com Tom Jobin, Vinícius de Moraes e João Gilberto, o ritmo brasileiro que chegou a modificar o “jazz” norte-americano. Em 1967, o Tropicalismo de Gilberto Gil e Caetano Veloso. Evidentemente que o Brasil não era só “rock and roll” até os anos 70, no século passado. Como, infelizmente, é hoje.

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