O Galo do Sumo Sacerdote

O galo é o macho da galinha. Ele, pela sua forma de viver, é muito autoritário. Quando eu era menino e estava sendo despertado para a vida, época dos porquês, dei o nome de Gumercindo para o galo que era criado na minha casa. Quando falei para o meu pai que eu dera para o galo o nome de Gumercindo, meu pai riu e como riu. Eu ria da alegria do meu pai. Gumercindo era o nome do tio de Marcela, minha vizinha, ele andava sempre com o nariz empinado e era muito autoritário. Depois, observei que o galo era um fingidor, como o tio da Marcela que, às vezes, usava uns rompantes femininos só para atrair as meninas da minha época. O galo, que era criado em casa, atraía as galináceas com o seu cocoricó feminino, como se tivesse achado uma comida deliciosa. Sempre aproveitava de suas amiguinhas que corriam enganadas para os seus braços. Esopo, o fabulista, deveria ter sugerido, no mundo animal, um juiz para processá-lo por assédio sexual. Se hoje sou Pastor jubilado da Igreja Presbiteriana é por causa da Graça inefável de Deus, pois eu observava tudo isso no galinheiro que ficava no fundo da minha casa.

Li, ainda, na minha infância, a fábula de Esopo sobre “O Galo e a Raposa”. Depois, já na adolescência, “A Missa do Galo”, conto de Machado de Assis, o maior escritor brasileiro, que era mulato. É um conto maravilhoso, onde permeia o adultério, tema preferido do escritor. Li, com muito gosto, como se dizia nos anos idos, “O Galo de Barcelos”, que mesmo depois de morto e assado, cantou na hora que um inocente iria ser enforcado, salvando-o. Sócrates, o filósofo, assim afirma Platão, que narrou a morte do seu mestre, no momento que iria partir desta vida para a outra, disse: “ Criton, devo um galo a Asclépio, não esqueça de pagar essa dívida.”

Lucas, o médico amado do apóstolo Paulo, narra, no seu evangelho, a última ceia da Páscoa de Cristo. Afirma que o Mestre, durante a ceia, deu uma aula teológica, destacando verdades que jamais o ser humano poderia conhecer. Cristo ensinava, cuidava, defendia, aconselhava, amava e orava a favor de seus discípulos. Jesus era e é o bom Pastor. Os pastores, na atualidade, e falo com todo respeito, são verdadeiros animadores de auditório e não chegam aos pés e quando ensinam, agem com empáfia, como se conhecessem todos os mistérios celestiais, esquecendo-se dos outros deveres. Pois bem, Cristo dirigiu a Simão, que foi cognominado Pedro, nestes termos: “Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como trigo! Eu, porém, roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; tu, pois, quando converteres, fortalece os teus irmãos.” Simão não conhecia a si mesmo, como Cristo o conhecia por dentro e por fora, e disse: “Senhor, estou pronto a ir contigo, tanto para a prisão, como para a morte.”

Jesus bem poderia ter lhe dito: “Homem, conhece-te a ti mesmo.” Naquele tempo a Psicologia estava engatinhando e fazia parte da Filosofia, mas o Messias, que é o Deus encarnado e que conhece o passado, o presente e o futuro dos homens, apenas disse: “Afirmo-te, Pedro, que hoje, três vezes negarás que me conhece, antes que o galo cante.”

Jesus sabia de tudo e até dos pormenores do seu julgamento. Sabia, pois tinha visto o galo que eles não viam, mas ele vira, pois enxergava até o invisível por ser soberano. Vira Pedro assentado perto do fogo e uma criada a lhe dizer: “Este homem estava com ele.” Vira Pedro, retrucando-a: “Mulher, não o conheço.” Vira Pedro, quando um outro, passando e vendo-o, agachado, disse: “Também tu és dos tais.” Cristo viu Pedro, protestando: “Homem, não sou.” Vira Pedro, depois de uma hora, ainda agachado, aquecendo-se no braseiro, dizer para um homem que, com o dedo em riste, disse:- “Também este, verdadeiramente, estava com ele, porque também é galileu.” Cristo viu novamente o seu discípulo, que seria uma pedrinha da igreja, insistir: “Homem, não compreendo o que dizes.”

Lucas afirma que tudo que Cristo previu, aconteceu. Quando Pedro ainda não terminara de dizer a sua última negação, eis que o galo cantou. Tudo isso aconteceu na casa do sumo sacerdote. O silêncio era geral e havia apenas aquele entra e sai, esperando que o dia amanhecesse para que a assembleia dos anciãos do povo se reunisse, tanto os principais sacerdotes, como os escribas e o conduzissem ao Sinédrio. Como havia silêncio, ouviu-se perfeitamente o cântico do galo. Era um cântico triste, exprimindo, segundo as religiões pagãs, um mau agouro. Jesus pôs, fixamente, os olhos em Pedro e o discípulo lembrou-se das palavras do seu Mestre: “Hoje, três vezes me negarás, antes do cântico do galo.”

Pedro, o irmão de André, levantou-se e saiu da roda dos escarnecedores e foi chorar amargamente. O Reverendo João Beatty Howell, comentando, disse: “Como um relâmpago que cortando as trevas em noite tempestuosa, descobre ao viajante o medonho abismo que lhe está diante, este volver de olhos revelou a Pedro as profundezas de sua maldade, de sua deslealdade, de sua ingratidão e de sua falta de fé, de seus votos falidos, de suas orgulhosas profissões e promessas tão miseravelmente desmentidas; e, quebrantado pelo peso de tão grande loucura e pecado, arrependido, saiu para fora , chorando amargamente.”
O galo, pela misericórdia de Deus, provocou o arrependimento de Pedro.

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