O que muitas mulheres não contam sobre a infertilidade

“Em toda minha vida eu sempre desejei ser mãe”. Talvez essa seja a frase mais revisitada após um diagnóstico de infertilidade. O sonho escorre pelos dedos e todos os planos feitos antes do ponto certo para engravidar se tornam banais. E se não tivesse esperado tanto, se tivesse feito outras escolhas, se não pensasse tanto na minha profissão? O “se” aprisiona e vira um tormento sem fim.

A maternidade nem sempre começa pelo positivo. Ela vem carregada de uma história. O silêncio de algumas tentantes diz mais do que muitas palavras. Há um peso em cada pergunta ou suposição da sociedade que, ao analisarmos, geram feridas invisíveis.  A verdade é que cada mulher tem um caminho e NENHUM é menor que o outro.

E foi justamente nesse trajeto sensível que conheci mulheres cujas histórias se entrelaçaram pela dor, esperança, coragem e ressignificação. Entre elas, a enfermeira de reprodução humana assistida e professora Aryane Moreira. Aos 36 anos, ela guarda em seu coração diversos formatos de histórias: “Quantas vezes chorei com famílias ao ver um bebê ser gerado, ou vibrei porque eles tinham esperança. Criei até uma página (hoje sem uso) denominada @tomaraqueelaengravide para orientar e falar sobre esse tema, que ainda é um tabu na sociedade”, conta ela.

Sua experiência mais dolorosa nessa área não veio do seu trabalho em clínicas. Veio da própria vida. Ela sentiu na pele o que tanto acolheu em outras mulheres. Teve medo do desconhecido ao viver um aborto e muito se questionou se também teria que passar por algum método da reprodução humana assistida. Em meio a tanto medo descobriu a gravidez de Gael (que foi de forma natural). Grata pela vida de Gael, ajuda outras pessoas com seu conhecimento, inclusive, em sala de aula.

A trajetória de Aryane também se conecta à de Julyanne de Morais, de 40 anos, enfermeira e criadora de conteúdo para o perfil @infertilidadesemcensura. Apesar de sempre sonhar ser mãe, sabia que era necessário realizar outros sonhos antes. Com 31 anos, momento em que ela e seu esposo resolveram engravidar, recebeu o diagnóstico de endometriose e indicação de Fertilização In Vitro.

Após anos de tratamento, preparos e quatro perdas gestacionais, o casal chegou no limite físico, emocional e financeiro. Foi então que ela se tornou mãe por meio da adoção. Bento fez jus ao seu nome e abençoou aquele casal que tanto amor guardou.

Aryane também acolheu a história de Gessica Almeida Hidalgo Silveira a qual sua maternidade foi marcada por muita dor. Ela, que na infância, brincava de boneca e casinha, na vida adulta precisou atravessar profundas sombras antes de realizar esse sonho.

Após viver dois abortos e ter ciência do diagnóstico, optou pela Reprodução Humana Assistida (FIV). Mesmo com a implantação de dois embriões, o resultado negativo acrescentou maior dor à sua alma. Foi então que somente sua fé a sustentou e o inesperado havia batido na porta de seu coração: Ela engravidou de forma natural.

Quando Ravi tinha um ano, ela viveu um novo aborto. Em sequência, recebeu o diagnóstico de uma gravidez ectópica (quando o bebê fica na trompa). Foi preciso passar por uma cirurgia e retirar sua trompa esquerda.

Neste momento Gessica decidiu colocar DIU. Estava no ápice de esgotamento emocional. Entre a consulta e a data agendada ela viveu uma nova benção, que hoje recebe o nome de Noah. Atualmente, fala sobre suas dores, medos e milagres em seu Instagram @gessicahidalgo, sendo voz de esperança e aconchego a tantas mulheres que vivem o que ela viveu.

Itapetininga também guarda a história de Maria Eduarda e Thais, que se conheceram na escola, durante o Ensino Fundamental, e hoje são casadas. Ambas sempre tiveram o sonho de ser mãe e, após muitas pesquisas e conversa em grupo de mulheres tentantes, realizaram a Fertilização In Vitro. Elas contam que foi uma jornada cheia de sentimentos. “Teve ansiedade – já que é um processo com muitas etapas e diversas expectativas. Também havia o medo de não conseguir na primeira tentativa. Entretanto, existiu muita esperança”.

Hoje elas são mães de João. E, segundo o que relataram, a jornada ficou mais leve após cada mensagem de apoio, cada palavra de incentivo e compartilhamento de sonhos.

A verdade é que as histórias são retalhos de sonhos vividos, sentidos ou apenas planejados. Cada mulher guarda suas vontades, sonhos e dores.

Falar sobre infertilidade ou Reprodução Humana Assistida como opção ainda pode ser tratado como um tabu, e, por isso, muitas famílias ainda permanecem em silêncio antes do positivo (seja ele de forma natural, após a fertilização ou durante a adoção).

Portanto, como resume a mãe de Bento, talvez não aconteça como foi imaginado e seja necessário redirecionar a rota: adoção, óvulos doados, banco de sêmen, barriga solidária, adoção de embrião. São muitos os caminhos que levam à maternidade. E todos merecem acolhimento e respeito.

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