O Sertão de Itapetininga

Thais Maria Souto Vieira

Talvez estejamos vivendo hoje um zeitgeist brasileiro de resgate e valorização de outras narrativas que não apenas aquelas oriundas do Sudeste e consequentemente de matrizes restritamente ocidentais. Recentemente pudemos ser surpreendidos com uma série chamada “Cangaço Novo” no streaming da Amazon Prime. Acompanhamos o sucesso do remake da novela Pantanal. Tivemos também em Itapetininga o prazer de assistir o espetáculo “Meu Seridó” do grupo Casa de Zoé que nos trouxe um olhar de tantas identificações com uma região (que existe) no Rio Grande do Norte. Ouso dizer que de certa forma nós, itapetininganos comuns, somos também o sertão se não na paisagem geográfica, um tanto nos costumes, hábitos e jeitos de sobreviver em meio a tradições arraigadas e arranjos políticos que muitas vezes favorecem apenas quem tem um sobrenome ou uma conta bancária de muitos dígitos.
Como vai dizer Darcy Ribeiro sobre a formação do Povo Brasileiro, nascemos um povo novo e velho ao mesmo tempo porque as relações de poder ainda pendem para um velho mundo. A potência do Brasil está muitas vezes justamente naquilo que renegamos, querendo importar de fora uma forma, uma métrica ou uma estética. A solução para nossas dores pode estar justamente na cultura da qual fazemos parte e tanta vezes renegamos tentando encaixar esse espelho de Narciso miscigenado num avô europeu.
A peça “O sertão de Nós Mesmos” é um trabalho primoroso realizado pelo grupo de artistas do nosso Sesi que todo ano nos surpreende com uma nova discussão, mas sempre resgatando de forma cuidadosa e cheia de beleza as mazelas que nos atingem. São muitas as referências em palco, o que nos faz sair do teatro embelezados, mas também refletindo sobre as relações patriarcais, as relações de poder nos interiores de cada região e dos diversos “brasis” que aqui (r)existem, a exclusão das populações rústicas (caipiras, caiçaras, sertanejos…), a marginalização da espiritualidade de origem africana ou indígena (matrizes de nossa formação cultural) e a necessidade urgente de ouvirmos os povos originários na busca de sobrevivermos frente a um futuro muito incerto, seja por conflitos ideológicos ou por catástrofes ambientais que ainda estão por vir.
É nesse momento importante de resgate de nossa verdadeira ancestralidade que o espetáculo se encaixa e nos mostra de maneira rica o quanto a separação entre o que é Terra (origem) e Humanidade só nos levará a derrocada. O grupo de artistas na peça costura este enredo musicado que une a paixão, tragédias, exploração da terra e a possibilidade de se sobreviver através da arte e de uma conexão verdadeira e profunda com nossas raízes. Vale ressaltar que toda a parte musical da peça ganha grande peso na contação dessa linda história resgatando cantigas populares e interpretadas de forma contextualizada no espetáculo mostrando a versatilidade dos artistas em cena, seja na interpretação, nas vozes e na execução de vários instrumentos musicais.
A arte, definitivamente pode nos salvar. O sertão que habita em mim, saúda o sertão que habita em você.

O Sertão de Nós Mesmos
Teatro do SESI Itapetininga – Av. Padre Antonio Brunetti, 1360
sexta-feira, dia 27 às 20h
Ingressos: MEU SESI

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