“O Sertão de Nós Mesmos” nos mostra as nuances da alma uma peça para quem se deixa sentir

Por: Mayara Nanini

Qual é o impulso que te leva a sorrir? O que você traz na bagagem que muda uma história? Qual a dor que te fez amargurar? Sua alma conversa e inspira outros corações?
As respostas para essas perguntas são encontradas na obra maravilhosa com a qual o Núcleo de Artes Cênicas do SESI de Itapetininga nos presenteou.
O processo criativo do SESI tem o poder de incentivar seus atores a criarem uma peça teatral que conversa com a alma. Não basta atuar, todos cooperam com o enredo, músicas e principalmente vivências.
“O Sertão de Nós Mesmos”, dirigida pelo brilhante e visionário diretor Milton Cardoso, teve sua estreia no dia 29 de setembro e contou com uma segunda apresentação no dia 1º de outubro. A casa esteve cheia nos dois dias e o público saiu de lá com o coração cheio de amor.
O sertão não retrata tão somente seu clima seco, mas as diversas vidas sedentas que são petrificadas pelo tradicionalismo e dor. Basta olhar para a trama e perceber como alguns personagens se preocupam tão somente com a invasão do colorido em suas terras tão sombrias.
Em um tom cômico, os artistas que buscam a cidade de Patacoxá, são forçados a uma parada por falta de combustível. Sendo obra do destino, ou não, existia um motivo para que lá se instalassem. É no sertão e divisa de terras proibidas que arrumam confusão, amam, sonham e proferem reflexões existenciais.
A trupe, com um figurino que segue a ideologia das cenas (feito pelas mãos de fada da figurinista Isolete Rosa), arranca boas risadas com as piadas que são repletas por verdade e proximidade com nossa amada Itapetininga.
De uma forma natural, a direção de Milton conseguiu aprimorar o melhor de cada ator, trazendo ao palco o talento individualizado, que, unido ao grupo, nos agracia com um misto de personagens intensos e graciosos.
O elenco apresenta uma dinâmica única de troca de personagens e variação de gênero, onde é possível observar a segurança em cena. Eles provocam catarse, vindo a mergulhar no Drama intenso por minutos e, logo após, já nos transportam para a comédia, transformando toda angústia em riso. Existe gradação. Há leveza, intensidade e emoção em um curto intervalo de tempo.
Fato é que em um momento rimos com o vidente atrapalhado (Luiz Cleto), ou ainda com Totonho, artista da trupe que imita animais (Luiz Cleto). Em questão de segundos, somos impactados com o amor de um casal (Felipe Rocha e Rafaela Gunther) que decide enfrentar a tradição do sertão para viver do sentimento puro e proibido que os uniu.
A história nos presenteia com recortes de sentimentos e vivências, refletindo como um espelho para nossa vida. Enquanto os apaixonados caminham por uma corda e são ambientalizados por bolinhas de sabão, a magia nos transporta para um mundo dos sonhos e invade nossos sentimentos.
A verdade é que todos conhecemos um Fulanin (Felipe Rocha) trancafiado em um mundo de tradição, que ganhou asas para buscar seus sonhos, ou ainda uma bela Yuxin (Rafaela Gunther) escrava da solidão, que é presentada com a liberdade a partir do amor que floriu em seu coração.
Cada qual tem o seu sertão e o colorido da vida que resgata a alma. Quando você permite que o colorido das nuances cômicas invada seu “Eu”, algumas algemas se quebram e revelam um novo amanhã. Por mais que o percurso seja dolorido, existirá sempre um riacho no meio do sertão que te levará para a Patacoxá almejada.
Que as temperaturas altas durante o ano tragam o calor necessário e a chuva passageira seja a principal fonte de energia para escorar os próximos momentos de seca. É no íntimo de cada ser que as sementes germinarão quando tudo parecer ressecado pela dor.
É hora de prestigiar essa peça que tem tanto a dizer sobre nós mesmos. Mergulhe no mundo de artistas alegres e almas coloridas. Conheça esse trabalho de texto que brinca com palavras, resgata personagens cativantes, realça contos místicos, exala poesia, nos presenteia com músicos únicos, iluminação ímpar, organização impecável e uma história de amor de outras vidas.
Já reserve o ingresso para a próxima apresentação. Uma obra assim não pode passar ilesa sem aplausos.
Próximas datas:
27/10, 20h
15/11, 19h
Local: SESI de Itapetininga

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