Os passos vagarosos de Patrício

Como o Legislativo desta cidade debate na Câmara sobre projeto que pode proibir terminalmente carroças trafegarem nas ruas de Itapetininga, vem-nos à memória (a morada da alma) a figura singular e simpática de Patrício, que em seu andar lento e seguro, assemelhava-se perfeitamente a carroça que dirigia.
Personagem conhecido naquela época por todos os setores da sociedade, robusto, moreno escuro, cabelos e bigodes totalmente brancos, há muito na profissão de carroceiro, transportava para qualquer lugar toda espécie de mercadoria.
Em seu veículo singelo, puxado geralmente por burro, com resguardo de grades, lerdo e vagaroso, transitava placidamente pelas ruas, algumas calçadas, cumprindo seus serviços, de agrado de todos que o procuravam.
Patrício, tão somente, era constantemente chamado desde móveis, até fogão, passando por sacos de cereais, parte de árvores cortadas, rolos de fumo, lixos em geral e outros utensílios. José Germano Pires, ex-inspetor da Gessy-Lever, lembra-se que “Patrício em determinada ocasião teve a grata satisfação de levar em sua carroça – devidamente enfeitada – uma noiva para a Igreja da Matriz onde iria contrair casamento”.
Tudo com resignação cristã e sem se irritar, esbravejar ou gritar com “o cliente”. O animal, também pacífico, cabeça baixa seguia o trajeto, quase automaticamente para o destino fixado. Também, pausadamente, talvez ciente do serviço que realizava, obedecendo ao comando de Patrício, o seu guia e mentor.
Patrício residia na então novel Vila Santana, próxima a estação Sorocabana, habitada por grande parte de funcionários que trabalhavam na ferrovia. O animal que prestava serviços permanecia nas horas de folga, naqueles plácidos e férteis campos, junto a linha de ferro daquela área da cidade.
Nosso conhecido Patrício, respeitado por todos, provinha de família humilde de Itapetininga, e muito ligado a Durvalino Toledo, um dos primeiros habitantes da Vila e ocupando cargo de liderança daquela comunidade.
Não se considerava um Patrício Teixeira, cantor popular brasileiro dos anos 1930, nem Antonio Patrício, diplomata e escritor português, tampouco São Patrício Arcebispo, ou pertencente a grei dos Patrícios conselheiros íntimos dos imperadores romanos. Mas tão somente Patrício – o valoroso carroceiro. Ele, que em sua carroça simples transportava bagagens e outros objetos da então Sorocabana para os hotéis “São Paulo”, “Roma” ou “Central”, pensões da cidade e até para propriedades situadas na zona rural, pode-se afirmar que saiu da “estrada do povo” e com o povo se identificou plenamente.
Servindo com o trabalho durante mais de meio século toda população local, como Patrício, outros carroceiros identificados com o povo tiveram participação ativa na economia do município. Naquele tempo, em sua rudimentar filosofia afirmava que “o melhor automóvel existente não era mais belo que sua carroça puxada pelo seu amado burro”.

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