Pra não dizer que não falei de…

Entre 2003 e 2010, quando voltei a lecionar no ensino médio (antigo colegial) na rede estadual dessa cidade não foram poucas as vezes que ouvi os jovens assobiando e cantando a histórica canção do cantor e compositor Geraldo Vandré, de título “Pra não dizer que não falei de flores” (“Caminhando e cantando e seguindo a lição…”). Sempre com curiosidade indagava aos alunos se sabiam o nome da música que, bem ou mal, estavam interpretando. Geralmente não sabiam, ouviam por outros mais velhos, e decoravam por acharam bonita ou interessante, mas nem sabiam, se era brasileira ou alienígena. Em 2006, “Pra não dizer que não falei de flores” voltou na mídia, principalmente a televisada, no Governo Federal de Lula, através de uma propaganda do Ministério da Educação conclamando os vestibulandos a se inscreverem no Prouni, que, como vocês sabem, eram um projeto do então Governo no sentido de patrocinar o custo universitário dos alunos mais carentes.

De acordo com a época, a canção foi apresentada num ritmo “meio pop”, meio “hip hop” um pouco diferente, já que Geraldo Vandré, o autor, era um purista e não admitia que fosse sons estrangeiros em suas composições. E nesse período (2003-2010) e nem agora (2020), certamente os jovens não sabiam nada e não sabem da vida do paraibano Geraldo Vandré autor da citada música. Formado em Direito pela Universidade Federal da Paraíba, Vandré veio para São Paulo tentar a carreira artística, aparecendo muito no início da década de 1960 na finada TV Excelsior, que ocupava o antigo Teatro de Cultura Artística, na rua Nestor Pestana, próximo a igreja da Consolação. Suas músicas, geralmente também com letras suas, eram irreverentes, mordazes, com um som próprio e que protestavam contra as más condições de vida do trabalhador brasileiro. Vandré tornou-se nacionalmente conhecido quando sua criação “disparada” (prepare seu coração…) cantada por Jair Rodrigues e que empatou com “A banda” de Chico Buarque de Holanda, no Segundo Festival de Música Popular Brasileira da TV Record de São Paulo, em outubro de 1966. Dois anos depois em 1968, foi classificado ele e seu violão e concorreu na Final Nacional do Terceiro Festival Internacional da Canção Popular promovida pela novata Rede Globo do Rio de Janeiro. Era 29 de setembro de 1968, no Maracanãzinho do Rio de Janeiro quando Geraldo Vandré foi aclamado pelas milhares de pessoas presentes. Pelo júri, ficou em segundo lugar. Mas a plateia queria que sua canção ficasse em primeiro. Mas este posto foi ocupado por Antônio Carlos Jobim, o “Tom” e Francisco Buarque de Holanda, o “Chico”, autor de “Sabiá” cantada por Cynara e Cybele e grande orquestra. O público carioca não aceitou o resultado e Tom Jobim, presente, foi vaiadíssimo (Chico Buarque estava na Itália).

Pouco tempo depois, em 13 de dezembro do mesmo ano, foi decretado o terrível Ato 5 pelo governo ditatorial (que acabava com toda a liberdade individual do Brasil) e Geraldo Vandré por causa de suas músicas consideradas subversivas passou a ser conhecido como inimigo total do governo militar. Daí, ele teve que exilar-se no Chile.  Por longos anos “Pra não dizer que não falei de flores” tornou-se um dos símbolos da contestação dos estudantes contra o governo e praticamente sua execução na mídia falada e televisiva não mais aconteceu. Quando, tempos depois, Geraldo Vandré voltou do exilio, renegou sua carreira artística, rompeu com o movimento de esquerda da época e entrou no anonimato.

Geralmente o jovem continuam não sabendo sobre este período conturbado da vida brasileira. Tanto, que muitos deles levavam, até recentemente em passeatas, com apoio a determinados políticos, faixas ou comunicações (também pelas redes sociais) pedindo a volta do Ato adicional 5, por exemplo. Ou será que sabem e apoiam? Pois é.

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