“Quarto de despejo: diário de uma favelada”, de Carolina Maria de Jesus

Por: Daniel Paulo de Souza

Fabulações transformadoras

Quando o escritor Aluísio Azevedo, na obra “O cortiço”, descreveu, de modo franco, os tipos mais representativos da pobreza latente das periferias de nossas cidades, apresentou-os como parte da tese segundo a qual o meio social determina o comportamento do indivíduo. No enredo que contrapõe a vida de quem tem posses a dos “humildes que se exaurem na faina da própria sobrevivência”, nas palavras de Alfredo Bosi, o ambiente do cortiço é um dos protagonistas, pois naquela terra “encharcada”, “fumegante” e “lodosa” começa, de acordo com o narrador de Azevedo, a “minhocar” e a multiplicar-se uma geração de pessoas “como larvas no esterco”. Ali o caráter humano, sob a influência da miséria desapiedada, rebaixava-se ao nível animalesco e mostrava-se degenerado.

Esse romance trouxe aos leitores, a partir de uma perspectiva naturalista, um retrato bastante crítico da árdua vida dos mais pobres, de suas lutas e dissabores. A arte, nesse sentido, denunciava o real e lhe escancarava a chaga da indigência. Entretanto, o olhar onisciente que o deslindava era externo ao universo exposto e estava perpassado pelo crivo analítico das teorias cientificistas da época.

Algumas décadas depois, a escritora Carolina Maria de Jesus, com o livro “Quarto de despejo: diário de uma favelada”, publicado em 1960, ressignificou essa experiência do relato da pobreza, porque o produziu diretamente do epicentro da vulnerabilidade extrema. Sendo ela mesma uma “mulher preta”, moradora da antiga favela do Canindé, catadora de papel e mãe solteira de três crianças, Carolina transcendeu, com lucidez admirável, a privação material e financeira da qual era vítima para converter os seus penosos dias em uma autobiografia vigorosa e comovente. Como diz Alberto Moravia, o desenvolvimento dessa narrativa coloca-nos “diante de um testemunho autêntico da mais humilde entre todas as formas de existência”.

Como afirma o jornalista Audálio Dantas, responsável pela descoberta de Carolina Maria de Jesus no Canindé e, posteriormente, pela edição do “Diário”, “repórter nenhum, escritor nenhum poderia escrever melhor aquela história – a visão de dentro da favela”. Segundo ele, a matéria-prima que buscava para uma reportagem estava pormenorizada em “uns vinte cadernos encardidos que Carolina guardava em seu barraco”. Naquelas páginas não havia filtro para a emergência da miséria, apenas o simples escoamento, em palavras, da batalha cotidiana pela sobrevivência numa realidade hostil, nada convidativa e, em certa medida, destruidora de sonhos. Em nota, os editores explicam que a publicação respeitou fielmente a linguagem usada pela escritora com seus desvios da norma culta padrão, das concordâncias à ortografia e à acentuação, já que, dessa forma, o texto conseguiria traduzir “com realismo a forma de o povo enxergar e expressar o seu mundo”.

“Quarto de despejo” começa sua trajetória com um justo e sincero desabafo. Era o registro do dia quinze de julho de 1955, aniversário de Vera Eunice, filha caçula da autora, e a intenção de comprar-lhe sapatos novos para comemorar a data terminou malograda porque, segundo Carolina, o “custo dos generos alimenticios nos impede a realização dos nossos sonhos”. Restavam-lhe, da venda de papéis, somente “65 cruzeiros” com os quais comprou escassa comida sem a garantia de haver pão para o café da manhã do dia seguinte.

Assim decorria a rotina daquela modesta mulher: levantar cedo, enfrentar a fila de moradores para pegar água, tentar ajeitar o desjejum dos filhos, sair para recolher papel, ferro ou outros itens do lixo e vendê-los para conseguir algum alimento. Na maioria das vezes, presenciava a violência e a embriaguez da população local, suportava os mais diversos xingamentos contra si e as suas crianças, testemunhava a falta de empatia da sociedade, convivia com a sujeira e respirava “o odor dos excrementos” mesclados ao “barro podre”, num cenário que lhe incitava frequentemente “a vontade de morrer”.

Para Carlos Vogt, “o repúdio da autora à situação em que se encontra é visceral”. A todo instante, ela não esconde a firme posição de abandonar não só a comunidade, mas também a existência laboriosa que leva, porque a considera perniciosa e insuportável a ponto de revoltar-se com as tribulações cotidianas.”Quando estou na favela”, ela diz, “tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo”. À medida que Carolina percebe essa condição humílima oprimi-la sem que possa vislumbrar alternativa de fuga, nutre a ideia de sair do “inferno” com o auxílio dos livros, sobretudo daquele que está produzindo. Escrever é um refúgio que lhe permitiria “comprar um terreno para sair da favela”.

No entanto, a própria escrituração nessa obra, conforme foi concebida, é paradoxal. No mesmo instante em que a autora, num ato de pura indignação, tenta distanciar-se do real ao expurgá-lo nas páginas do diário, também desperta em si a consciência de pertencer indelevelmente a ele, de carregá-lo em si. Ao passo que diz suportar “as contingências da vida resoluta” e “armazenar paciência”, pois, se Deus ajudar, “hei de mudar daqui”, também compreende que anda “trapuda” porque já usa “o uniforme dos indigentes”; que vasculha habitualmente as latas de lixo porque não sabe “passar por elas sem ver o que há dentro”. Carolina transita entre o “sonho maravilhoso”, em que se imaginou “um anjo” de “estrelas na mão”, e a visão factual do seu reflexo fantasmagórico na vitrine produzido pela magreza.

A pobreza, nesse caso, não é uma construção simbólica ou um paradigma imaginário com “fins didáticos”, como destaca Vogt, mas “um estado social de carência efetiva” do qual só é possível se desvencilhar nos “termos próprios das limitações dos meios que esse estado propicia”. De acordo com Otto Lara Resende, ela efetivamente tinha algo a dizer, possuía “essa mistura de raiva e ternura” que impele a falar a qualquer custo e a externar o que “bloqueia a garganta e ameaça matar por asfixia”. O autor pondera não saber se ela “queria explicar o mundo, ou se queria transformá-lo”; talvez quisesse, com a escrita, “explicar-se e transformar-se” para sobrepujar a penúria insistente.

Sem dúvida, enfrentar a fome era o desafio mais expressivo e mais desumano para a protagonista. Vencê-la significava uma nova oportunidade de viver, mas sempre na incerteza do dia seguinte, já que “o pobre não repousa”, “não tem o previlegio de gosar o descanço”. Muito recorrentes nos registros de cada dia, as expressões “estou indisposta” ou “fiquei indisposta”, usadas por Carolina, representavam quase uma arrumação linguística interjetiva para indicar a exiguidade das energias ou o decaimento do corpo que implorava por uma refeição digna para voltar a labutar pela sobrevivência.

A experiência da fome, no “Diário” comparada à “pior das enfermidades” ou à “escravatura atual”, chega a ser o termômetro para o humor dos moradores, que se entregavam ao alcoolismo e aos atos violentos em decorrência da abstenção de comida. O desespero é o último grito da alma aflita que busca soluções para o provimento básico. Sem a nutrição adequada, a mente divaga, distorce os pensamentos, abandona a racionalidade e deseja a morte ou as soluções impensadas. A dor de não ter respostas ao choro de fome dos filhos e a existência levada ao limite em cada esforço extenuante fizeram a autora maturar em si um provérbio só seu: “não há coisa pior na vida do que a própria vida”.

Elzira Divina Perpétua comenta que um diário é um projeto de escrita solitário que pretende ser “a concretização do desejo de intimidade do escritor consigo próprio”. Na obra de Carolina Maria de Jesus, no entanto, essa proposta atinge outro patamar porque, além de constituir uma autoanálise, também afirma uma identidade moral e social com vistas a um questionamento público. A partir dessa exposição irrestrita, de alguém que, apesar de toda a luta, considera-se um “rebotalho” num “quarto de despejo” pronto para ser “queimado” ou “jogado no lixo”, resta-nos admitir que falhamos como seres humanos, pois ainda não fomos capazes de extirpar a aflição, a desesperança e o desamparo entre nossos semelhantes.

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