Saudades de minha mãe

Oh! Que saudades que tenho de minha mãe! Ela foi, na verdade, a minha primeira professora, sem ser normalista. Antes, bem antes de entrar na escola para aprender as primeiras letras, eu já sabia ler e escrever. Ela me ensinou, juntando letra com letra. Aprendi, também, aritmética, cantando, com uma melodia caipira de Ibiraci, cidade do interior de Minas Gerais. Ela usava, na minha alfabetização, a Aritmética Elementar de Antônio Trajano, Pastor presbiteriano. Todos os dias, cantando e brincando comigo, dizia: dois mais um, três; dois mais dois, quatro; dois mais três, cinco; dois mais quatro, seis e assim a tabuada do três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove. Depois, quando ingressei na Escola Primária, minha professora de óculos com aro de ouro, sapato alto, lábios carmesim, dizia que era para contar nos dedos, assim: cinco mais três, oito. Eu já sabia de cor com a musiquinha do sul de Minas. Mamãe, numa promessa que fizera, queria que eu ingressasse no seminário interno e fosse Pastor Presbiteriano. Ela morreu com trinta e oito anos e não me viu ser ordenado Ministro e receber as bênçãos divinas por mãos do Presbitério. Que fatalidade, meu Deus! Anna era o seu nome. Ela era filha do fazendeiro Adolfo Faria Lobato, como fui informado, pois não o conheci.
Quando leio Iracema de José de Alencar, vejo a minha mãe. Ela tinha, como a personagem do livro de Alencar, “cabelos negros como a asa da graúna e mais longos que seu talhe de palmeira”. Digo, sem medo de errar, parafraseando o escritor mais romântico do Brasil, que “o favo de jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha rescendia no bosque como seu hálito perfumado”. Minha mãe e só a minha mãe era “o símbolo de ternura e amor”.
Todas as mães receberam do Criador um cérebro privilegiado, uma vez que jamais podem se esquecer do filho que gerou. É atributo divino que foi dividido e distribuído às mulheres. Isaías, o evangelista do Velho Testamento, afirmou que Deus perguntou e respondeu: “Acaso pode a mulher esquecer-se do filho que ainda mama, de sorte que não se compadeça do filho do seu ventre? Mas ainda que esta viesse a se esquecer dele, eu, todavia, não me esquecerei de ti. Eis que nas palmas das minhas mãos te gravei”…Só Deus substitui a mãe, uma vez que jamais ele se esquece de nós.
Como é bom saber que na terra nós temos um resquício do amor divino. É um vestígio, apenas um indício do amor eterno, incomensurável, indestrutível daquele que enviou o seu Filho unigênito para salvar o pecador. Foi Deus, por meio do Espírito Santo, que me consolou, quando me senti sozinho no mundo, logo que minha mãe partiu para a glória celestial. Senti um vazio no meu coração e na minha casa. Corria, como menino que era, de quarto em quarto e não via a minha mãe. A impressão que tive, quando a minha mãe foi para o Céu, que o mundo havia acabado e eu fiquei só, embora houvesse muitas pessoas ao meu redor. Elas diziam palavras de conforto, que não me confortavam. Abraçavam-me, porém não era um abraço que transmitisse calor, afago e amor. Era um abraço protocolar e nada mais. Na minha dor, quando minha mãe não tinha o que dizer, ela me abraçava e eu sentia curado e sem dor. Que diferença!
Oh! Que saudades que eu sinto de minha mãe! Lembrando dela, eu cumprimento todas as mães, pois, neste mundo, só sentimos a ausência do Eterno, o Supremo Criador, e da geradora da vida, que é a mãe.

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