Toda infância era assim

Quando chega a maior festa da cristandade, um Natal esperançoso, alegre, feliz e com saúde, que irmana indistintamente todos seres humanos – sem atentar para raça, cor, ou condição social – fica-se meditando como as crianças de outrora se comportavam e de que maneira viviam.
Voltando compassadamente à décadas passadas, desfila na memória – qual filme cinematográfico – a cena em que ao alvorecer, ainda na penumbra, um galo, sempre próximo à nossa residência, acordava a todos com seu canto tradicional, enquanto um rádio de outro lado, em som desabrido, anunciava, naquelas manhãs – a apresentação de duplas sertanejas como Alvarenga e Ranchinho, Jararaca e Ratinho e cantores do naipe de Albertinho Fortuna, Nora Ney, Trio Nagô e outras atrações da época, considerados astros de primeira grandeza.
As escolas eram frequentadas por crianças de todos os cantos da cidade, do centro, das vilas Paquetá ou Aparecida e alguns provenientes dos bairros da Chapadinha ou Chapada Grande. As escolas se resumiam nos majestosos estabelecimentos do “Major Fonseca”, Aplicação (da Peixoto Gomide), Fernando Prestes e Adherbal de Paula Ferreira (denominados então como primeiro e segundo grupos escolares). Existiam as escolas rurais – nos vários bairros itapetininganos inspecionados pelos professores Abílio Fontes, ou Sebastião Vilaça.
Os meninos daqueles tempos, ingenuamente, subtraiam frutas diversas da famosa chácara pertencente a Nhã Cezária, propriedade de grande extensão que abrangia parte da Quintino Bocaiuva e Fortunato Mazzei. Outros quintais existentes na cidade eram alvos de visitas das crianças, por causa dos pomares vicejantes, e de fácil alcance.
Quase todas crianças, mesmo os considerados “almofadinhas”, jogavam bolinhas de gude em plena rua, onde também pelejavam no futebol, utilizando bolas de meias ou de borracha, adquiridas nas Casas Zebú, Curitibana, Matarazzo, ou na “Armênia”, para os de maior poder aquisitivo. Muitos também empinavam “pipas” ou “matavam passarinhos com o tradicional estilingue”
Havia os “garotos”, contra a vontade de outros colegas, que procuravam à noite espionar pela janela “o que se passava na intimidade dos quartos de casais. Igualmente, à luz da lua permaneciam sentados nas calçadas conversando sobre todos assuntos “que lhe vinham à mente”.
Com roupas novas e limpas, aos domingos, frequentavam as matinês dos cinemas S. José, Ideal e São Pedro, assistindo filmes de faroeste ou as incríveis séries estreladas por Bob Stele, Buck Jones, Roy Roger ou Flasch Gordon, ou o Planeta Mongo. Adquiriam doces nas padarias do Vadozinho, Gelados ou Confeitaria do Alemão, depois pertencente a Carmo de Conti. Não esquecendo que, frente aos cinemas, eram oferecidos às crianças as pipocas de Toninho de Carmo, Júlio e Lazinho Pipoqueiro, onde também se comentavam sobre tudo.
No Natal – cuja data era em reverência a Papai Noel – as crianças exigiam seus presentes: carrinhos, geralmente de madeira, espadas, revolver, bicicletas (os de maior posse), e outros como os Keds (tênis), roupas e alguns eram presenteados com livros.
Como cantava Ataulfo Alves, em seu inolvidável samba- “eu era feliz e não sabia”. Ele se referia ao seu tempo de criança: alegre, ingênua e puro.

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