Zilda tem a felicidade como companheira

Às vésperas de seu centenário, que espera estar ainda muito bem, Zilda Cardoso, em plena atividade física e mental, se considera uma mulher inteiramente realizada.
E, com orgulho, declama trecho do maior poeta argentino Jorge Luiz Borges, “A velhice pode ser nosso tempo de ventura. O animal morreu ou quase. Restam o homem e a alma”. Não que ela não fosse venturosa ao longo de sua existência, uma vez que chegando aos seus 99 anos de vida, neste próximo 2 de dezembro, continua a se considerar uma das mais felizes entre os mortais diante do que lhe tem sucedido.
Filha de imigrantes portuguêses – Jorge Cardoso e Maria A. Cardoso, teve a benção divina em nascer nesta cidade, onde pai e irmãos se instalaram, prosperaram e auxiliaram o desenvolvimento de Itapetininga, que os acolheu com todo respeito. “Irmãos Cardoso” tornou-se conceituada empresa de grande porte dedicada a vendas de materiais de comunicações e edificações em geral.
A pequena Zilda passou pelas escolas, 1º Grupo (hoje Ardebal de Paula Ferreira), Colégio Imaculada e, com distinção, diplomou-se pela famosa “Peixoto Gomide”, tendo como mestres os ícones Juvenal de Paiva Pereira, Eliziário Martins de Melo, Roberto Pascoalik, Profº. Caldas Jr. Corina Caçapava Barth, Ana Correa e Humberto Vitorazzo. Era o ano de 1935 quando concluiu o curso, festejado com sessão solene das mais brilhantes e baile no então inaugurado anfiteatro da escola – semelhante ao Teatro Municipal, segundo Zilda – tendo como patrono da turma o Cel Antonio Vieira Sobrinho – Toquinho Pereira – político de alto prestígio no Estado, naquele então.
Em sua residência, em um dos apartamentos do Edifício “Barão”, Zilda recorda-se que entre seus inúmeros colegas destacavam-se Benedito Tambelli, Carmelita Samarco, Bruno Weiss, Franclina Tambélli, Chiquinha Fogaça, Irene Quarentei, Jair Badin, Odil Rolim, Ruth Mendes e, se considera com Nildes Aguiar “as duas mais antigas formadas pela “Peixoto”, ainda desfrutando da alegria de viver”.
No magistério, onde ingressou substituindo na própria Peixoto, no curso primário, lecionou como efetiva no município de Quatá, colocando também seus serviços educacionais nas cidades de Barretos, Jundiaí, Sorocaba e Itapetininga, aposentando-se na escola “Fernando Prestes”, após 38 anos de atividades ininterruptas. Desempenhou na Revolução de 1932 trabalhos artesanais vendidos posteriormente para angariar fundos à causa constitucionalista e prestando serviçoes como enfermeira, em dependência da Escola Normal “Peixoto” e na séde do 5º Batalhão de Caçadores, na rua General Carneiro.
Desenvolvia esforços auxiliando os mais carentes da cidade com bens materiais e necessidades espirituais e médicas, em casas beneficentes, não deixando de visitar aqueles privados de liberdade. Atualmente ela não viaja mais, ao contrário de anos passados, quando visitou quase toda Europa e América Latina, conhecendo um pouco da cultura diversificada de dezenas de países.
Feliz? “Graças a Deus, felicíssima por tudo que realizei e pelo que não consegui realizar. O que tem que passar estamos passando e isto é muito válido e legal”, diz. Talvez, inspirado na vida de Zilda Cardoso é que o musicista, professor da USP (Universidade de S. Paulo), com ligações em Itapetininga, e compositor dos mais qualificados, Luiz Tatit, criou a melodia interpretada pela cantora Zélia Duncan “Minha felicidade é tanta, que desconheço até a razão”.

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