Crônica de Fuad Abrão Isaac
Todos que passam diariamente pelo semáforo de quatro fases da Vila Rio Branco, em frente à Escola Sebastião Villaça, acostumaram-se à presença dela. Era parte da paisagem, como o poste torto da esquina ou o muro descascado da escola.
Muito magra, quase ossuda, carregava sempre um maço de revistas e jornais debaixo do braço, como se fossem documentos da própria existência. Um cigarro pendia da boca — às vezes aceso, às vezes apenas companhia. Aproximava-se dos carros quando o sinal fechava, batia de leve no vidro, pedia uma moeda, um olhar, qualquer confirmação de que ainda estava ali.
Havia dias em que estava brava. Xingava quem não abaixava o vidro, esmurrava o ar, lançava palavras duras como se quisesse ferir a indiferença. Em outros, parecia triste, quase doce. Encostava-se na mureta e contava pedaços de sua vida a quem tivesse tempo ou paciência. Ria sozinha. Falava de um passado que ninguém sabia se era lembrança ou invenção.
Com o tempo, tornou-se parte da rotina — e das consciências — de todos que cruzavam aquele sinal. Não se sabia seu nome, mas todos sabiam quem ela era.
As histórias sobre sua história multiplicavam-se. Teria sido professora? Diziam que sim. Outros garantiam que vinha de família rica, abandonada por parentes sem coração. Havia quem jurasse que seu pai fora um cineasta famoso. Nada se confirmava. Ela era feita mais de rumores do que de certezas.
Há pelo menos dez, talvez quinze anos, estava ali. De sol a sol. Sob o calor que rachava o asfalto e sob as chuvas que lavavam a cidade sem nunca lavarem sua dor.
Até que, numa tarde quente de janeiro, ela não apareceu.
Nem no dia seguinte. Nem no outro.
Os motoristas se entreolhavam nos retrovisores. Alguns chegaram a comentar:
— Mudou de ponto?
— Foi para outro bairro?
O sinal continuava abrindo e fechando, cumprindo seu dever mecânico. Mas faltava algo. Faltava alguém.
Então veio a notícia. Foi encontrada morta numa esquina da Vila, coberta pelos mesmos jornais e revistas que sempre carregava. Como se, no fim, fossem eles seu único teto, sua única herança, sua última companhia.
Um misto de tristeza e estranheza tomou conta do bairro. E, talvez — embora poucos admitissem — um certo alívio silencioso. Ela descansara. Não era mais a ferida exposta que nos lembrava, a cada luz vermelha, daquilo que fingimos não ver. Não nos faria mais sentir culpados ou cúmplices do abandono.
Ela se foi.
E o semáforo, agora, está vazio.
Mas o vazio também é presença. É memória. É espelho.
E sabemos — mesmo sem querer saber — que um dia outra história ocupará aquele espaço. Outra vida à margem. Outra vítima do nosso mundo. E o sinal continuará abrindo e fechando, indiferente, marcando o tempo de uma cidade que segue em frente, enquanto alguns ficam para trás.
















