Nenhuma das 26 escolas estaduais de Itapetininga avaliadas no 9º ano do Ensino Fundamental II atingiu nível adequado de proficiência em matemática: todas foram classificadas no nível básico. Em língua portuguesa, o resultado é quase o mesmo: 25 escolas ficaram no nível básico, e apenas uma unidade alcançou o nível adequado. Os dados são do Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp) de 2025.
Avaliação mede domínio de habilidades
O Saresp é aplicado anualmente pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) e avalia o desempenho dos estudantes da rede pública em disciplinas como língua portuguesa e matemática.
O resultado divulgado é a proficiência, que representa o nível de domínio dos estudantes sobre habilidades e conteúdos do currículo. Na prática, a proficiência indica o quanto o aluno sabe e consegue aplicar conhecimentos, enquanto a nota (como média ou índice final) é um indicador derivado desses resultados, e que ainda não foi divulgado neste ciclo.
A escala de proficiência varia de 0 a 500 pontos e é dividida em quatro níveis: abaixo do básico, básico, adequado e avançado.
Desempenho em língua portuguesa
A única escola que atingiu nível adequado em língua portuguesa foi a EE Alceu Gomes da Silva, com 181 pontos, aumento de 1,8% em relação ao resultado de 2024.
As demais unidades ficaram na faixa de nível básico, que no 9º ano corresponde à pontuação entre 200 e 275 pontos na escala de proficiência segundo a Fundação Vunesp, responsável pela elaboração da avaliação.
Entre as maiores médias em língua portuguesa no município estão, depois da EE Alceu Gomes: a EE Corina Caçapava, com 267,9 pontos e a EE Sebastião Pinto, com 264,9 pontos.
Já entre os resultados mais baixos aparecem a EE Jair Barth, com 218,2 pontos, e a EE Ernestina Loureiro Miranda, com 220,3 pontos.
Considerando a variação em relação a 2024, o maior avanço foi da EE Corina Caçapava, que teve crescimento de 6,4% na média de proficiência. Já a maior queda foi registrada pela EE Maria de Lourdes, com redução de 12,5% no indicador em comparação ao ano anterior.
Resultados refletem condições da rede
Para a professora da rede estadual Ana, o cenário não surpreende quem acompanha o cotidiano das escolas. “Os resultados mostram um cenário que, para quem vive a escola pública há muitos anos, não chega a ser surpresa. Há poucos avanços pontuais, algumas escolas melhoraram seus índices, mas o quadro geral ainda revela uma aprendizagem muito desigual e instável.”
Segundo ela, a diferença entre os resultados das escolas revela que o desempenho dos alunos não depende apenas do trabalho pedagógico realizado em sala de aula. “O que os dados evidenciam é que a escola pública continua funcionando em condições bastante diferentes entre si, embora submetida às mesmas metas e avaliações.”
Confira abaixo o ranking geral em língua portuguesa no 9° ano:

Para a docente, oscilações desse tipo mostram que os resultados refletem fatores mais amplos. “Quando vemos oscilações grandes entre crescimento e queda, percebemos que os resultados não dependem apenas do trabalho pedagógico, mas também de fatores estruturais, sociais, de gestão das unidades escolares e da própria organização da rede.”
Ela acrescenta que avaliações como o Saresp acabam refletindo processos acumulados ao longo do tempo. “O Saresp acaba mostrando mais os efeitos acumulados de políticas educacionais e das condições reais de ensino do que o desempenho isolado de um ano letivo.”
Nenhuma escola atinge nível adequado em matemática
Em matemática no 9º ano, todas as escolas estaduais da cidade ficaram classificadas no nível básico de proficiência.
A maior média foi registrada pela EE Sebastião Pinto, com 298,5 pontos, seguida pela EE Alceu Gomes da Silva (287,6 pontos) e pela EE Corina Caçapava (283,2 pontos).
Entre as menores médias aparecem a EE Jair Barth, com 243,8 pontos, a EE Maria de Lourdes (243,4 pontos), e o menor resultado foi da EE Ernestina Loureiro Miranda, com 236,5 pontos.
Na comparação com 2024, a maior alta foi registrada pela EE Alceu Gomes da Silva, com crescimento de 10,4% na média de proficiência. Já a maior queda foi da EE Maria de Lourdes, que apresentou redução de 22%.
Confira abaixo o ranking geral em matemática no 9° ano:

Na avaliação da professora, o desempenho dos estudantes é resultado de fatores presentes no cotidiano escolar. “Quem está na sala de aula sabe que o desempenho não nasce na semana da prova. Ele é construído, ou comprometido, diariamente.”
Ela aponta alguns dos principais fatores que influenciam os resultados: “Frequência irregular, que ainda é um dos maiores obstáculos à aprendizagem; Defasagens acumuladas desde a alfabetização, que chegam ao Ensino Fundamental II e Médio sem serem plenamente superadas; Rotatividade de professores, que quebra a continuidade pedagógica; Excesso de demandas burocráticas, que muitas vezes reduz o tempo de planejamento e intervenção pedagógica; Vulnerabilidade social dos estudantes, que impacta concentração, permanência e expectativa em relação aos estudos; Baixa cultura leitora, que afeta não só língua portuguesa, mas todas as áreas, inclusive o letramento matemático.”
Resultados nos anos iniciais
Nos anos iniciais do Ensino Fundamental (1º ao 5º ano), Itapetininga tem três escolas estaduais avaliadas pelo Saresp, com provas aplicadas no 2º e no 5º ano.
No 2º ano, todas as escolas alcançaram nível avançado em língua portuguesa e nível adequado em matemática.
Já no 5º ano, as unidades registraram nível adequado nas duas disciplinas. A exceção foi a EE Prof. Ataliba Júlio de Oliveira, que atingiu nível avançado em matemática, com 276,4 pontos.
Confira abaixo os resultados gerais dos 2° e 5° anos em língua portuguesa e matemática:



Desafios começam na alfabetização
Para a professora, muitos dos desafios da aprendizagem começam justamente nos primeiros anos escolares. Ela explica que dificuldades na alfabetização podem gerar impactos em toda a vida escolar.
“Na alfabetização, ainda enfrentamos estudantes que avançam de ano sem domínio sólido da leitura e escrita e do letramento matemático. Isso gera um efeito em cadeia: quando o aluno não lê com autonomia, ele passa a ter dificuldade em todas as disciplinas”, aponta.
Segundo a docente, o problema muitas vezes vai além do conteúdo. “Ao longo da educação básica, o problema deixa de ser apenas conteúdo e passa a ser de compreensão e sentido. Muitos alunos conseguem decodificar textos, mas não interpretá-los criticamente, nem aplicar conhecimentos matemáticos em situações reais”, explica
Outro problema apontado é a falta de integração entre as etapas da educação básica. “O sistema ainda trabalha muito por etapas, enquanto a aprendizagem é contínua. Falta maior integração pedagógica entre os segmentos.”
O que as provas conseguem medir
Para a professora, avaliações como o Saresp são importantes como instrumento de diagnóstico, mas possuem limitações. “Elas conseguem medir tendências e oferecer diagnósticos gerais, porém não dão conta da complexidade do processo educativo.”
Segundo a docente, a aprendizagem envolve múltiplas dimensões. “A aprendizagem envolve aspectos culturais, emocionais, sociais e cognitivos que não cabem integralmente em uma prova padronizada.”
Ela ressalta que melhorar os resultados não significa ensinar apenas para a prova, mas criar condições reais para que o aluno aprenda. “Quando a aprendizagem acontece de forma consistente, os indicadores melhoram como consequência, e não como objetivo principal.”
Medidas para melhorar os resultados
Para melhorar os indicadores educacionais, a professora afirma que não existem soluções rápidas. Entre as medidas necessárias, ela cita:
“Investir fortemente na alfabetização, com acompanhamento individualizado desde os primeiros anos; Garantir estabilidade das equipes escolares, permitindo continuidade pedagógica; Valorizar o tempo pedagógico do professor, reduzindo sobrecarga administrativa; Gestores com perfil adequado para gerir a unidade escolar nas condições em que ela esteja inserida; Usar avaliações como diagnóstico real, e não apenas como instrumento de cobrança; Fortalecer práticas de leitura em todas as disciplinas, não apenas em língua portuguesa; Criar políticas de recomposição de aprendizagem de longo prazo, e não ações pontuais; Olhar para o estudante de forma integral, considerando contexto social e emocional.”
Por fim, Ana conclui que melhorar resultados não significa ensinar para a prova, mas criar condições para que o aluno aprenda de verdade. “Quando a aprendizagem acontece, os indicadores melhoram como consequência, nunca como ponto de partida.”
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