A bióloga e pesquisadora Maria Teresa Piedade, mais conhecida em Itapetininga como Maitê, foi vencedora do Prêmio Almirante Álvaro Alberto 2026, a mais alta honraria da ciência e tecnologia no Brasil, em cerimônia realizada no último dia 07, no Rio de Janeiro. Ela morou em Itapetininga por cerca de quatro anos, onde lecionou na Escola Estadual Peixoto Gomide no início da carreira. Atualmente ela é referência internacional em ecossistemas amazônico, pesquisadora titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq.
Há quase 50 anos, Piedade vem desenvolvendo pesquisas sobre ecologia, em especial a de ecossistemas, com foco na influência do pulso de inundação na biota e interações, manejo sustentável e monitoramento de áreas alagáveis.
O Prêmio Almirante Álvaro Alberto foi criado em 1981 para ser atribuído à um pesquisador que tenha se destacado pela realização de obra científica ou tecnológica de reconhecido valor para o progresso da respectiva área.
Realizado em parceria com a Marinha do Brasil, o prêmio é concedido anualmente em sistema de rodízio entre três grandes áreas do conhecimento: Ciências Exatas, da Terra e Engenharias; Ciências Humanas e Sociais, Letras e Artes; e Ciências da Vida – categoria deste ano. Maitê, sendo a vencedora deste ano, recebeu um diploma, uma medalha e R$ 200 mil em dinheiro.
Pesquisas na Amazônia
Maitê conta que seu desejo agora é que a premiação traga mais visibilidade e cuidado para com as áreas úmidas, pois, conforme a especialista, em todo o país as áreas marginais aos rios têm sido alteradas enquanto os cursos dos rios são corrigidos e, frequentemente, concretados para darem espaços à lixões e estacionamentos. “Com isso a capacidade de absorção de água e regulagem de cheias desses ambientes foram sendo alteradas, resultando em fortes enchentes e contaminação. As consequências para os organismos, a começar pela vegetação marginal, são enormes e muito negativas”.
Ela alerta que na Amazônia, cheias e secas extremas têm sido motivo de grande preocupação, especialmente porque elas vêm se intensificando como consequência de ações humanas nocivas, amplificadas pela mudança do clima. “O conhecimento gerado pelo meu grupo de trabalho, o MAUA, tem se concentrado em avaliar a extensão dessas alterações. Buscamos ainda formas de evitar esses impactos ao meio ambiente e às populações humanas que vivem em áreas úmidas amazônicas, e meios de restauração de áreas afetadas”, expõe.
Líder do grupo Ecologia, Monitoramento e Uso Sustentável de Áreas Úmidas (MAUA), Maria foi a responsável pelo estabelecimento do Programa Ecológico de Longa Duração Peld Maua, que coordenou entre 2013 e 2019. Os estudos sobre ecossistemas de áreas úmidas da Amazônia realizados no âmbito do projeto, geram dados sobre a biodiversidade, dinâmica de carbono e impactos de mudanças antrópicas e do clima nesses ambientes críticos.
A especialista afirma que, cerca de 25% das chuvas que alimentam o agronegócio do Sudeste chegam por meio das águas bombeadas pela floresta amazônica, circulando, assim, pelos rios e pela mata. “A remoção das florestas, as queimadas e as alterações nos volumes de águas que circulam nesse grande sistema são, então, críticas também para a ecologia e economia nacionais, bem como para a integridade de nossos biomas”.
Para ela, receber o prêmio foi um momento indescritível de realização profissional. “Nunca havia imaginado! Ser eleita por um comitê de alto prestígio, formado por um conjunto de profissionais e peritos, é muito impactante. Sou muito grata por esse deferimento”, emociona-se.
Maitê destaca, ainda, que pretende continuar trabalhando com a ecologia enquanto puder. “Desejo, especialmente, continuar orientando estudantes de pós-graduação e por meio de divulgação científica. O futuro está nessa direção”, finaliza.
Carreira norteada pela Ecologia
Maria Teresa graduou-se em ciências biológicas na Universidade Federal de São Carlos, em 1975, onde teve seus primeiros contatos com a pesquisa científica. “Durante a graduação conheci meu marido, Luiz Rubens Piedade, nascido em Itapetininga e que cursava química”.
Foi após concluir sua graduação que a família se mudou para a cidadã natal de seu marido, onde ambos ministraram aulas no Peixoto Gomide. “Foi um período muito bom da minha vida, conhecer e ensinar tantos jovens motivados e cheios de energia – alguns com mais energia do que motivação, o que é natural! Guardo essa fase da minha vida no coração”, desabafa.
A decisão de ir para Manaus foi tomada devido o desejo de trabalhar com pesquisa científica. “A Amazônia era, e ainda é, o maior laboratório e atrativo. Assim, nos empenhamos na busca de oportunidades de trabalho no Norte do Brasil”. Maitê ainda conta que entre seus estudos e trabalhos em Manaus, ela e o marido visitam Itapetininga regularmente para ver a família.
A ecologia guiou os estudos de Piedade. Durante 15 anos, compôs o Conselho Científico Internacional do Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA, na sigla em inglês), que teve papel central na formação das novas gerações de pesquisadores sobre a região amazônica. Iniciado em 1998, com liderança do Brasil, o LBA reuniu instituições brasileiras, dos Estados Unidos, por meio da Agência Nacional de Aeronáutica e Espaço (Nasa), da União Europeia e de países amazônicos em torno de sistemas de observação da Terra. Hoje é um programa estratégico do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), executado pelo INPA.
Ao longo da carreira, a pesquisadora implantou e coordenou projetos nacionais e internacionais, com equipes multidisciplinares, sendo referência na formação de redes de cooperação consolidadas. Além de ter integrado, durante oito anos, o Conselho Nacional de Zonas Úmidas do MMA e o Diagnóstico Brasileiro de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos. Hoje, Maitê preside o Conselho de Administração do Instituto Mamirauá e atua no Painel Científico para Amazônia (SPA).
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