Milton Cardoso – Especial para o Correio
Neste sábado, dia 19, comemora-se o Dia Nacional do Teatro. Data destinada a homenagear uma das manifestações artísticas mais antigas da humanidade, principalmente os profissionais que atuam nesta área.
Em Itapetininga, o primeiro registro da realização de uma montagem foi em 1872, quando foi inaugurado a primeira casa de espetáculo da cidade, o teatro São João. Comandados pelo ensaiador Major João Monteiro, os atores encenaram a peça “Os Milagres de Santo Antônio”.
As atividades teatrais faziam parte da vida escolar na Escola Normal Peixoto Gomide. No livro “Lanterna Mágica”, a autora Lycia de Lara, narra o sucesso das apresentações “Nossa Terra, Nossa Gente”, trabalho realizado pelas normalistas com a participação de atores amadores da cidade, ensaiado com rigor pelo professor Modesto Tavares de Lima.
Seguramente, a manifestação teatral fazia parte do cotidiano da centenária escola seja para fins didáticos ou como forma de entretenimento. Na foto abaixo, cedida gentilmente pelo Museu da Imagem e do Som (MIS), podemos ver o registro fotográfico da peça “Colombo e a América”, de 1913.
Antes do surgimento dos meios de comunicação em massa, era muito comum as companhias profissionais excursionarem pelo interior e realizarem minitemporadas. Aqui não foi diferente, a partir da década de 1920, várias trupes profissionais se apresentaram, principalmente, no palco do Cine–Theatro São José, fazendo a alegria dos itapetininganos. Nomes consagrados como, Procópio Ferreira e o clássico do teatro brasileiro, a peça “Deus lhe Pague”, estiveram em nossa cidade.
No ano de 1920, uma montagem ganhou destaque foi a produção local: “É Inacreditive!”, comédia de revista, escrita em dois atos e quatro quadros pelo dramaturgo Dimas de Lima. O gênero teatral “em revista” era extremamente popular na primeira metade do século 20 no país. Com cenas carregadas de humor, música e de atrações variadas suas produções faziam uma revisão dos acontecimentos do ano.
“É Inacreditive!” teve um enorme êxito em suas apresentações, realizadas no palco do Cinema Ideal. Segundo os jornais da época, Dimas conseguiu com habilidade transpor para os palcos os costumes dos itapetininganos. Entre tantos amadores reunidos em cena, dois nomes chamaram a atenção da imprensa: Rivadavia Guimarães e Abílio Victor, o popular Nhô Bentico.
Também não podemos esquecer que os dramas e as comédias populares faziam parte do repertório das companhias de circos-teatros que visitavam frequentemente a cidade. As concorridas sessões faziam a alegria da população local. Entre malabarismos e a exibição de animais adestrados, peças como o drama “Mártir do Calvário” causavam comoção nos espectadores.
A partir de 1940, vários grupos amadores ocupavam principalmente os palcos do Clube Venâncio Aires e do Cine–Theatro São José. Liderados por Alcides Faria, Aires Lourenço de Souza e Humberto Pelegrini. Estes grupos geralmente apresentavam deliciosas comédias de costume. Vários artistas amadores ganharam destaque nesta época como Aldo de Oliveira, Margarida Fagnani, Galvão Junior, Paulo de Lara, Júlio Pucci, Lea Pellegrini, entre tantos outros. Os grandes destaques desta época foram os atores Carlos Silveira Conceição e Maria de Souza.
Com a popularização da rádio, muitos talentos de nosso palco migraram paras as ondas da Rádio Difusora de Itapetininga, a popular PRD-9. Com extremo talento, as famosas novelas radiofônicas do programa “Cortina de Veludo” eram comandadas pelo casal Geralda Silva e o ferroviário Celso Antônio, e deixaram saudosas lembranças na memória dos antigos ouvintes itapetininganos.
No livro “Genealogia de uma Cidade”, José Luiz Nogueira cita um importante grupo da cidade na década de 1960: o grupo Teatro Recreativo Itapetiningano. Ensaiados pelo radialista Ferreira Neto e a esposa Célia, os amadores Maria Mércia Lisboa, Fulgêncio, Filisbino, Maria Irene Dias, entre outros, alegravam as plateias da cidade, com destaque para a comédia “Canário ou o Beijo que Era Meu”.
Em 1967, um grupo de jovens do Teatro Estudantil Gremista, o TEG, liderados por José Luiz Ayres Holtz, trouxe inovações na estética teatral local. A peça de estreia do grupo foi a elogiadíssima “Novo Jeito de Pagar Velhas Dividas”, seguidas por montagens mais experimentais, e quase sempre polêmicas, como “Procura-se uma Rosa”, “Vácuo” e “O Que Acontece”.
Mais tarde, o inquieto José Luiz Ayres Holtz juntamente com Waldo Fázzio Junior, produzem a peça “A Cerimônia”, texto livremente inspirado em “Missa Leiga”, dentro da igreja Nossa Senhora das Estrelas. Em “Da Cruz do Negro”, Holtz escreve que a montagem era organizada como uma missa e falava sobre a paz. O palco ficava no meio da nave da capela e teve o apoio quase total dos fiéis. Outras montagens também foram realizadas na Igreja das Estrelas, através do grupo Teatro das Estrelas. Essas peças tinham um cunho mais didático. Entre as várias produções, destacou-se a encenação “Os Milhões de Rocambole”, escrita pelo padre Bloes, em 1976.
Foi durante a década de 1970, que as encenações das Paixões de Cristo passaram a fazer parte do calendário cultural da cidade. Sem sombra de dúvida, a primeira encenação “Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo”, ocorrida nas ruas da cidade em 1972, obteve o maior êxito de público, tendo a participação de mais de 120 figurantes.
É a partir de sua participação no espetáculo “Paixão e Morte”, que Antônio Luís Balint descobre o teatro. Durante décadas dirigiu vários espetáculos com o seu grupo Arco Íris e CPTI. Uma das atrizes do grupo, Andréa Paques revela que Balint sonhava com o dia que Itapetininga fosse conhecida como a “Cidade do Teatro”.
Na década de 1980, outro importante grupo desponta na cena Itapetiningana: a Associação Cultural Théspis. “O Milagre de Annie Sullivan”, dirigida por Margha Bloes, em 1984, foi um dos maiores sucessos da história do teatro da cidade. “Simplesmente Francisco” foi o último trabalho dirigido por Margha. Apresentada na Matriz, esta superprodução narrava a vida de São Francisco de Assis.
Outro grupo que agitava a vida cultural da cidade nessa época, é a companhia Ciranda da Lua, comandada por Maurício Lima Oliveira. De caráter popular, o grupo encenou “O Auto da Compadecida”, “Uma Mulher Vestida de Sol”, “O Sonho de uma Noite de Verão”, “A Cartomante” e “Pluft, o Fantasminha”, relembra o dramaturgo Rogério Sardela.
O artista João Carlos Luz começou a desenvolver atividades teatrais na cidade a partir de 1997, com o grupo “Em Cena Ação”. O intuito era criar uma opção artística diferenciada para Itapetininga. “Viúva, Porém Honesta”, “Cabaré Mahagony”, “O Rei da Vela” e “Senhora dos Afogados” foram algumas das produções do grupo. A partir desta companhia despontaram para a cena os atores Fábio Jurera, Paulo Carriel, entre outros.
A partir do novo milênio, surgiu o Tapanaraca, o grupo itapetiningano mais longevo com 18 anos de atividades, liderado por Fábio Jurera. A trupe vem se destacando com várias participações e premiações em festivais espalhados pelo Estado. Talvez a produção mais emblemática do grupo seja “Carfax”, vencedora do Mapa Cultural Paulista.
A partir de 2007, uma das opções para o público da cidade é assistir espetáculos com propostas diversificadas no Teatro do SESI da Vila Rio Branco. A entidade mantém também o Núcleo de Artes Cênicas (NAC) com cursos livres de iniciação teatral. Entre os vários exercícios dramáticos apresentados e produções locais destacam-se a trilogia de “Amores Esquecidos”, composta pelas peças “Contos de Amores Esquecidos”, “Crônica de um Amor Esquecido e “Lenda de um Amor Esquecido”. Histórias que buscavam resgatar fatos e pessoas da cidade, a partir das memórias “quase esquecidas”.
A partir do NAC, surge o grupo “Detrás do Pano”, em 2010, liderado por Paulo Carriel. No repertório da companhia montagens de Nelson Rodrigues, “O Filho Ingrato”, “É Só Uma Peça de Teatro” e os infantis “Saltimbancos” e “Revolta dos Brinquedos” com impressionantes 350 apresentações, segundo a produção do grupo.
Em 2021, novas montagens darão continuidade a essa história tão rica. O grupo Detrás do Pano promete “Somos Todas Neusa!”. Andréa Paques faz sua estreia na direção com uma adaptação do monologo “Valsa n.º 6”, ao lado da atriz Denise Brunatto. O ator Rogério Sardela está ensaiando “Revelações de um Cinquentão – Dez Anos Depois” e Fábio Jurera promete dar continuidade a comédia “Farsa da Comparecida Vestida de Sol” e possivelmente, retomar “Sonho de uma noite de São João”. Ao público resta esperar ansiosamente essas novas produções.
















