Morreu nesta quarta-feira, dia 25, em Itapetininga, João Ribeiro, aos 76 anos. Gerenciou por vários anos a tradicional Padaria Barão, ao lado de seus irmãos, e também era atuante no meio político da cidade, sendo presidente do Partido dos Trabalhadores (PT) por diversos anos.
Aposentado, João Ribeiro era casado com Tereza Miriam João Ribeiro e não deixa filhos.
Velório e sepultamento
O velório está sendo realizado no Memorial Antonio Ferreira de Camargo, sala 01.
O sepultamento está marcado para quinta-feira, dia 26, às 9h, no Cemitério Jardim Colina da Paz, em Itapetininga.
A seguir, leia abaixo a crônica escrita por Fuad Abraao Isaac em homenagem a João Ribeiro:
João Ribeiro, presente
Conheci João Ribeiro em meados dos anos 80.
Ele gerenciava, ao lado dos irmãos, a Panificadora Barão — lugar de cheiro permanente de pão quente e portas sempre abertas. João era assim também: simpático, acolhedor, daqueles que faziam qualquer pessoa se sentir conhecida de longa data.
Logo descobri que ele também era petista. E, naquele tempo, isso significava mais do que uma preferência política — era quase um pacto de esperança. Foi o suficiente para nos aproximarmos de vez.
Em 1989, na primeira grande eleição direta depois de tantos anos de silêncio imposto, quando Lula esteve tão perto de chegar lá, eu já era vereador e João Ribeiro se transformara em um dos militantes mais ativos que conheci. Simples no jeito, gigante na disposição. Gostava de reunir os companheiros em sua casa, no Jardim Fogaça. Entre conversas sobre o país que queríamos construir, ele comandava a churrasqueira como poucos. Assar carne era quase um ato político: ali nasciam ideias, amizades e coragem.
Rodamos a cidade inteira. Depois, a região. Carros cheios, bandeiras improvisadas, sonhos maiores que qualquer estrutura partidária.
Em 1990 fui candidato a deputado estadual pelo PT, e João estava lá — sempre estava. Organizando a turma, vendendo estrelinhas e camisetas na Praça Peixoto Gomide, garantindo o pão do lanche da militância. Negociante habilidoso, era sócio de loja de máquinas, da imobiliária com o irmão Pedro, mas nunca deixou que os negócios ocupassem o espaço da causa coletiva.
Virou dirigente municipal do partido. Foi presidente. Arrumou sede, montou chapa, discutimos, brigamos, fizemos as pazes — como acontece entre companheiros que acreditam demais nas mesmas coisas.
Na véspera das eleições de 1994, entre Lula e Fernando Henrique, já perto da meia-noite, João convocou o diretório para uma reunião urgente. Disse que faria um grande pronunciamento. Ficamos apreensivos. Sentamos todos na sala, em silêncio.
Ele então declarou, solene:
— Companheiros, tenho uma coisa a dizer. Amanhã só existem duas opções: ou o Lula vai para o segundo turno… ou não vai.
Por um segundo ninguém reagiu. Tentávamos entender. Então João abriu aquele sorriso largo e completou:
— Já fizemos o que tínhamos que fazer. Agora é hora da cerveja.
Era assim. Transformava tensão em riso, militância em convivência, política em humanidade. Fortalecia um tempo em que os sonhos ainda eram apenas sonhos — e justamente por isso tão poderosos.
Os anos passaram. Continuamos lutando. Lula foi eleito, depois Dilma, vieram as vitórias, as derrotas, a prisão, o golpe, as feridas abertas de um país em transformação. Entre farpas e confetes atravessamos décadas intensas. João seguiu firme, sempre simples, sempre acreditando. Viveu de utopias — e talvez seja essa a forma mais bonita de viver.
Um homem bom. Antes de tudo, um homem bom.
A doença chegou e permaneceu por anos. Ao lado da companheira Mirian e dos irmãos, lutou como um leão pela vida. Resistiu com dignidade, cercado de cuidado e amor.
Nesta quarta-feira de manhã, partiu.
E eu carrego agora um peso silencioso: durante esses oito anos de luta pela saúde, fui covarde. Não fui visitá-lo. Sempre havia tempo depois. Sempre haveria outro dia.
Não houve.
Resta a memória — e ela é cheia de vida. João permanece nas ruas que percorremos, nas campanhas improvisadas, nas risadas depois das reuniões sérias demais, no pão repartido entre companheiros.
Porque certas pessoas não desaparecem. Elas continuam existindo onde ajudaram a construir esperança.
João Ribeiro, presente.
















