Maria Telles (1957-2018)
Nasceu em São Miguel Arcanjo, no interior de São Paulo, no seio de uma família de origem libanesa pelo lado materno.
Em 1964, mudaram-se para Itapetininga para Maria continuar os estudos, porque sua mãe percebia que era “diferente” das outras crianças. Ali, no imóvel em que os Telles viviam, Dona Cida servia delícias e quitutes árabes para ajudar no sustento dos filhos, que a filha aprendeu a fazer com maestria.
Foi aluna do tradicional Instituto de Educação Peixoto Gomide, a primeira Escola Normal do Estado de São Paulo, como Maria gostava de lembrar com orgulho, onde colecionou conhecimento e um grupo de 14 amigas – as Institutrizes, conforme apelidou – que cuidaram dela como irmã, até o final. Desse tempo, nunca se esqueceu do significado de ser professor(a) e do papel da educação como veículo para a autonomia e para a liberdade.
Aos 18 anos mudou-se para São Paulo, formou-se em Filosofia pela FFLCH/USP e fez cursos de aperfeiçoamento na Goethe-Univerität de Frankfurt, onde viveu por dois anos. Tornou-se poliglota por vontade e esforço próprios: além de inglês, francês, italiano e espanhol, era tradutora e fazia versões para o alemão.
Sua memória imensa não cabia em nenhum Google e a capacidade de articular informações e fazer conexões rapidamente, sintetizando e tirando delas o perfume e o suco, ainda que ácido, era impressionante.
Essa era uma marca registrada de Maricota (como as amigas a chamavam), mulher de cultura profunda e abrangente, de forno e fogão, de prendas e agulhas. Com a mesma fluidez e desenvoltura falava sobre a música de Tom Jobim a Sidney Miller, de Sarah Vaughan a Amparo Ochoa, de Stavinsky a Villa Lobos, e a poesia de Adélia Prado, Drummond e Manoel Bandeira.
Mas as marcas que mais deixarão saudade são sua alegria de viver, seus comentários polêmicos e seu humor sagaz. Tinha horror às ideias prontas, aos consensos, aos clichês. Se, por um lado, era uma demolidora de engrenagens fáceis, por outro tinha enorme capacidade de agregar todos à sua volta, de nunca se desfazer dos vínculos que criou e de batizar grupos e pessoas com apelidos para lá de criativos – como Babete, Beleninha, Demoniquinha, Franga, Infernanda, Margaridinha, Rosabianca, Silvie e Sampaia e tantos outros – que sempre fizeram rir.
Em novembro de 2014, seu marido e pai de seu único filho, o cineasta Sérgio Teichner morreu em um acidente na BR-116, a estrada da morte, na Serra do Cafezal.
Depois do tratamento de um câncer de mama, voltou para a cidade onde passou a infância e, como contribuição voluntária para sua querida Itapetininga, Maria manteve uma coluna semanal de crônicas no Jornal Correio. Escrevia sobre meio-ambiente, civilidade, comportamento, cultura, história e, é claro, de poesia e música.
Morreu no dia 18, aos 60 anos, em decorrência da reincidência agressiva e silenciosa do câncer. Deixa o filho Octávio, de 22 anos, três irmãos – Lauro, Jorjão e Tellão. – e uma larga confraria de amigas e amigos que acumulou e congregou em todas as suas muitas “vidas”, ex-companheiros com os quais manteve fortes vínculos e muitos sobrinhos, de sangue e por adoção.
Daisy Perelmutter, Helena
Tassara e Mônica S. Gouvêa















