Levantamento recente revela que a cada cinco minutos três pessoas morrem em hospitais por conta de negligência de diversa ordem. Este número não é qualquer número e corresponde a uma confluência de fatores que, direta ou indiretamente, conduzem a tal cenário.
Vários relatos casuais chegam-nos todos os dias e revelam uma realidade triste: a qualidade médica humana está em franco declínio. São médicos incapazes de ler uma chapa de raios-x, outros que não identificam doenças hoje banais como sarampo ou catapora, sem contar os relatos de recém-formados que fazem plantões apenas para comprar uma bolsa ou trocar de celular – frise-se que não há mal algum nisto se prevalecer o profissionalismo. Esta qualidade médica não é o único fator para a negligência, como dito acima trata-se de uma confluência de fatores, mas é o central. E no interior desta centralidade está outro entre tantos fatores, todavia que é, quiçá, o mais importante: a capacidade de leitura. O trabalho médico é, acima de tudo, semiótico. E o que isto significa?
Um médico trabalha com indícios e significados atribuídos a estes indícios, que o conduzem a diagnósticos e tratamentos. Nós, em nosso saber intuitivo, podemos diagnosticar uma gripe ou um resfriado por um conjunto de indícios já de outrora reveladores de um estado gripal. Tal capacidade é uma leitura assim como o gesto de olhar para o céu e concluir se choverá ou não. Da mesma forma, porém, que erramos na previsão do tempo apenas olhando para o céu – por ignorarmos o vento e a umidade, por exemplo – erramos no diagnóstico de uma gripe, ignorando outros males que possam produzir um mesmo quadro sintomático. Em um ou outro caso, o que potencializa o acerto é a consideração de fatores, de possibilidades, de experiências e de análises de todo o conjunto. Por isto, na qualidade de leigos, tendemos ao erro.
Um médico de outrora era um excelente leitor de indícios e, não por menos, gerou excelentes escritores, sobretudo de romance policial. A semiótica era sua principal arma, que lhe aguçava a mente associando todo o conhecimento adquirido na faculdade de Medicina e lhe trazia notoriedade, assim, franca ascensão social.
Entretanto, o avanço tecnológico aplicado à medicina fez evoluir os processos de diagnóstico, de exames de sangue a minuciosos aparelhos de examinação introspectiva, e transferiu para estes processos a segurança que antes estava na capacidade humana. Cada vez menos, médicos arriscam em diagnósticos. Cada vez mais, médicos restringem sua capacidade de leitura. E o reflexo de tal situação é retroativo, ou seja, chega às faculdades de medicina, aos vestibulares e aos bancos escolares, ao ponto de termos um estado deplorável entre estudantes que pleiteiam uma vaga num curso de medicina. Muito pior, ainda, entre os demais que não se sentem cobrados a pensar analiticamente.
Só que a culpa não é de somente um fator, como sempre, há uma confluência, desde professores mal preparados, escolas puramente mercenárias, materiais obsoletos, enfim, diversos fatores que se juntam para gerar o que temos hoje. Mas a leitura, infelizmente, é o fator mais importante, uma vez que um estudante proficiente em leitura é capaz de superar e substituir todos os demais fatores que contribuem à sua formação. Mesmo décadas atrás, quando creditávamos maior valor à escola, essencialmente conteudista, quem se destacava era o aluno autodidata, que conseguia extrair o máximo para si do que lhe era apresentado.
Ou nos preocupamos mais com a leitura, ou assistimos a negligência gerar mais e mais males para a vida cotidiana.
Peixoto Gomide volta ao debate com revisão de nome de rua
A discussão sobre a permanência do nome do político Francisco de Assis Peixoto Gomide Júnior, mais conhecido apenas como Peixoto Gomide, em espaços públicos voltou a ganhar repercussão após a...















