Faleceu em janeiro desse ano uma das divas do teatro brasileiro, Maria Della Costa. Para a atual geração, seu nome pode soar desconhecido, mas para apaixonados pela arte da representação e do teatro brasileiro seu nome é uma referência pelo talento e coragem com que encarou a profissão.
Foi inicialmente manequim e estreou nos palcos com a peça A Moreninha. Quando residiu em Lisboa, estudou arte dramática no conservatório português. Na sua volta ao país, conheceu seu segundo marido, Sandro Polloni e fundou o Teatro Popular de Arte. Foi dirigida por grandes encenadores entre eles, Ziembinski, Gianni Ratto e Antunes Filho e interpretou grandes papéis como Joana D´Arc em O Canto da Cotovia, Chen-Te/Chui-Tá em A Alma Boa de Setsuan, Maggie (personagem inspirada em Marilyn Monroe) em Depois da Queda, entre outros.
Della Costa ajudou a lançar vários nomes de destaque no cenário como, Fernanda Montenegro e Milton Moraes, além, dos hoje consagrados autores de telenovelas, Manoel Carlos e Silvio de Abreu.
Entretanto, o que mais encantou, foi sua postura, juntamente com Polloni, frente à renovação teatral brasileira. Com o Teatro Popular de Arte, trouxe aos palcos um repertório inovador e construiu um teatro próprio em São Paulo. Em um lance de ousadia, sem cortinas e poltronas, conseguiu audiência com então presidente Getúlio Vargas, poucos dias antes do suicídio. Porém sua obstinação, aliada a sua beleza, a conduziu as situações inconvenientes. Assédios de patrocinadores eram frequentes, inclusive de pessoas ligadas ao governo. Determinada, inaugurou o Teatro Maria Della Costa na Rua Paim, em 1954.
A Cia de Maria Della Costa ganhou reconhecimento internacional e refer¬ência na vida cultural brasileira. Suas montagens levaram grandes nomes da dramaturgia nacional e internacional aos palcos, porém seu arrojo lhe causou problemas com a ditadura portuguesa, ao encenar autores taxados de “comunistas”. Ficou retida em Lisboa, por quase um mês, juntamente com quarenta atores, sendo então socorrida pelo jovem governador Leonel Brizola. No Brasil, teve problemas com o regime militar de 1964, o que ocasionou a diminuição de suas atividades teatrais e o refúgio na cidade carioca de Parati, onde mais tarde inauguraria seu hotel, Coxixo.
Maria Della Costa partiu juntamente com outros nomes importantes da nossa cena teatral, como recentemente Chico de Assis. A atriz foi uma de nossas “divas” do teatro, artistas que encaravam a profissão como instrumento de transformação social, política de nossa realidade e não como mero aparelho de exibicionismo pessoal.
Milton Cardoso
*O autor é professor de Artes















