O Correio já mostrou na edição 637, 19 de maio, os crescentes casos de estupros ocorridos em Itapetininga. Isso é, de fato, uma estatística alarmante às mulheres e não só no aspecto de violências sexuais, mas na constante insegurança vivida por meninas e mulheres itapetininganas. Segundo a Secretaria de Segurança Pública, foram 92 casos registrados em 2016.
Casos de insegurança; violência física, sexual, psicológica; assédio moral e sexual são fatos corriqueiros na vida de meninas e mulheres. A doula Samara Barth, por exemplo, passou por algumas situações de acuamento e perseguição. “Tinha um cara que me seguia, enquanto eu segui a caminho do trabalho, próximo à prefeitura. Várias vezes ele me encontrou no meio do caminho e me seguia por toda a avenida de carro, ia devagar ao lado, às vezes parando, outras dando volta no quarteirão. Um dia de chuva, ele fez isso tudo de novo e eu ignorei, como sempre, mas ele resolveu parar, oferecer carona, insistir na carona (isso já perto do Ouro Ville). O cara estava com carro adesivado da Porto Seguro [seguradora]”, disse Samara. “Fiquei muito assustada e me sentindo violada”, explicou.
Em Itapetininga existem alguns movimentos feministas. Um deles, criado há três anos, fez história ao participar e promover debates, manifestações e eventos sobre proteção e igualdade de mulheres e meninas, bem como o direito de ir e vir sem medo, insegurança ou sentimento de culpa, em casos de assédios. A página na plataforma do Facebook, Marias e Clarices – feminismo em Itapetininga desponta para algo ainda novo na cidade, vindo de uma infeliz realidade. “A criação do Coletivo foi resultado dos altos índices de violência contra a mulher em Itapetininga e, em específico, ao caso de um vereador possivelmente envolvido em uma situação de estupro coletivo de uma adolescente de 16 anos. Na época, em 2013, vimos como necessário pelo menos o afastamento dele durante o processo. Realizamos um ato e saímos colhendo assinaturas a fim de enviar um abaixo assinado ao presidente da câmara. Infelizmente o presidente do legislativo não acatou nosso pedido de afastamento”, explicou uma das idealizadoras do coletivo, a cientista social Thaís Maria Souto.
A semente
O grupo se tornou menos atuante, por conta de compromissos pessoais das integrantes mas, segundo Thaís Maria, a semente lançada pela Marias e Clarices gerou importantes frutos. “Nos reuníamos uma vez ao mês e, na época, realizamos atos nas praças centrais da cidade no dia internacional da mulher por três anos consecutivos, participamos de programas de televisão regionais e atuamos em algumas ações nos CRAS da cidade junto a mulheres em situação de vulnerabilidade, atendidas pelas instituições. O grupo se desfez, mas hoje temos grupo de mães empoderadas na cidade, um grupo de Advogadas, chamado Abrace, entre outras manifestações espontâneas, coletivas ou individuais que sempre trazem o assunto à ona”, concluiu.
A página no Facebook Marias e Clarices – feminismo em Itapetininga ainda é administrada por Thaís Maria, cientista social, e Inty Oliveira, professora de música e feminista.
Já se é sabido que o Disque Denúncia 180 serve, especialmente, para atender denúncias de violência contra a mulher e que o isolamento é a pior maneira de conceder sensação de segurança à mulher. “Claro que vejo como necessário políticas públicas efetivas de proteção à mulher, como a lei do vereador Milton Nery que autoriza o transporte público parar fora do ponto para mulheres no período noturno, assim como iluminação pública de qualidade e um atendimento especializado para as mulheres nas Delegacias, mas apenas isto não resolverá o problema da violência. Precisa existir discussão na sociedade sobre este assunto”, disse Thaís. “É preciso ensinar os filhos a respeitar as mulheres”, finalizou.
Leis feministas
Em 2013, a Lei 12.845, de autoria da deputada federal Iara Bernardi, prevê a obrigatoriedade de atendimento integral à mulher vítima de violência sexual na rede hospitalar do Sistema Único de Saúde (SUS). O atendimento deve ser em caráter emergencial, integral e multidisciplinar, visando o controle e tratamento dos agravos físicos e psíquicos decorrentes de violência sexual, e encaminhamento, se for o caso, aos serviços de assistência social. Apelidado como a Lei da profilaxia da gravidez, líderes religiosos, na época, chamaram de aborto o que, segundo a autora da lei, não passa de um atendimento especializado à mulher. Na época, Iara Bernardi explicou que “A mulher violentada já está fragilizada com a situação e muitas acabam não denunciando a violência por medo e vergonha. Ter um atendimento unificado e sigiloso, ajuda no tratamento daquela mulher, após uma violência.”
Chega de Fiu-Fiu
O “Chega de fiu fiu” é uma campanha contra o assédio sexual em espaços públicos. As organizadoras – ONG Olga – criaram um site em uma tentativa de mapear os lugares mais incômodos e até perigosos para mulheres no Brasil, lá é possível compartilhar depoimentos sobre assédio ou algum outro tipo de violência. Em 2013, como parte da campanha, foi realizada uma pesquisa com 7762 participantes e 99,6% delas afirmaram que já foram assediadas: o local principal de assédio relatado foi a rua (98%). No site www.chegadefiufiu.com.br é possível compartilhar e ler depoimentos sobre assédio em diversas cidades do país.















