A rainha dos balangandãs

No minidicionário da Língua Portuguesa, de autoria de Silveira Bueno, edição atualizada, editora FTD, São Paulo, a palavra pandemia vem um pouco antes de pandemônio. Pandemia, segundo o autor significa “epidemia generalizada que abrange vasta região” e pandemônio, “reunião de indivíduos para armar desordens; tumultuo; balbúrdia”. Foi esta a palavra que lembrei-me ao assistir recentemente um filme norte-americano com a cantora brasileira Carmen Miranda. O celuloide era “Serenata Tropical”, do início da década de 1940, pelo canal Cult (Sky, Net e outros). Um dos treze (ou catorze?) que a trepidante carioca (mas, nascida em Portugal) participou em Hollywood, Califórnia, USA, chamada de “capital do cinema”.

Os filmes em que Carmen atuou eram comédias pandemônicas com situações tumultuadas, pequenos (mas passageiros) conflitos, mas que sempre terminavam bem. Quando Carmen Miranda entrava em cena, seu personagem era um “furacão”, hora interpretando, hora cantando e dançando (melhor: requebrando). Cantava em português, mas também em inglês. E como ela chegou até lá? Pelas mãos de um empresário de “show-business” Lee Schubert que a viu cantando no Cassino da Urca, no Rio de Janeiro, em 1939, já com sua vestimenta de baiana que ela tornou famosa e imortalizou-a. Seu destino em terras estadunidenses não era o cinema, mas sim o teatro na Broadway, em New York, num musical denominado “Ruas de Paris”.

Segundo Ruy Castro, um de seus biógrafos em sua obra Carmen escreve que ao entrar em cena acompanhada do Bando da Lua cantando entre outras, “Mamãe eu quero”, conquistou a plateia novaiorquina em seis (seis!) minutos.

Depois Hollywood e o mundo ocidental. Atuou durante catorze anos. Lembro-me do impacto que causou aqui no Brasil, a notícia, do seu precoce falecimento. Sim, recordo daquele fatídico dia de Agosto de 1955. Eu tinha catorze anos e cursava a 7ª série do então ginasial (hoje, 8ª série do Fundamental II) no dificílimo “Peixoto Gomide”. Estudava “feito louco” e não estava fazendo outra coisa no princípio da tarde quando o “Repórter Esso”, o principal noticiário auditivo brasileiro pela voz emocionada do locutor Heron Domingues, da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, em edição extraordinária o acontecimento. Quando a notícia dada pelo “Repórter Esso” fora do seu horário normal, então era porque algo de muito grave tinha acontecido no Brasil ou no mundo.

E não poderia ser outra. Carmen Miranda era uma referência nacional. Naquele ano de 1955 ela tinha vindo para o Brasil depois de catorze anos de ausência. E passou o carnaval entre nós (no Rio, exatamente!) comparecendo em todos os grandes bailes, coroando rainhas “disto e daquilo” revendo amigos como Ary Barroso, Dorival Caymmi, Silvio Caldas e outros, aparecendo em capas de grandes revistas. Daí, em março daquele mesmo ano, voltou para Bervely Hills, em Hollywood, onde morava e empolgava nos filmes fazendo o possível e o impossível para transmitir a música brasileira para os norte-americanos mesmo que, na maioria das vezes, de forma caricata, pois o olhar deles, americanos sobre nós, brasileiros, era sempre de maneira exótica e atabalhoada.
Carmen Miranda teve que usar muitos balangandãs para se impor e hoje, 80 anos depois sua chegada lá, nenhum brasileiro brilhou como ela. Nenhum.

E, além disso, Caetano Veloso e Gilberto Gil inspiraram-se muito nela para criar no Brasil a teoria musical do Tropicalismo ou, nós, somos um pouco assim mesmo, estabanados.

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