Arvoricídio

Há muito tempo estou aqui… A primeira maravilha que me encantou foi o Sol! Lembro que, no começo, quando ele ficava muito tempo sem aparecer, um frio estranho me abraçava; lá no alto, o que era azul vestia-se de cinza e, quando chegava a noite, as estrelas se escondiam… Mas, quando ele acordava de manhãzinha, que alegria! Lá de cima, muito além das nuvens, ele parecia fazer um afago e tudo aqui, na Terra, tornava-se tão quentinho, tão quentinho…
Eu fui crescendo, crescendo… Meus braços foram se tornando cada vez mais longos… As folhas que despontavam nos meus galhos tinham cor de esmeralda! Às vezes, guardavam na pele algumas porções de orvalho e, depois, quando o astro-rei aparecia, elas se transformavam em pequeninas redomas de arco-íris…
O vento era um amigo sempre bem-vindo… Quando ele passava por mim, todos os meus ramos balouçavam de alegria… Chuva? Uma dádiva! Pura delícia era sentir aquelas gotinhas cristalinas tocando a minha copa, umedecendo minhas folhas, o meu tronco, meus galhos; deslizando até minhas raízes aconchegadas sob a terra!
Pássaros sempre me fizeram companhia… Alguns construíam ninhos nos meus braços e eu vi muitos avoantes pequeninos ensaiando seus primeiros voos… Outros apenas chegavam à noite, pernoitavam e, de manhãzinha, ruflavam asas buscando o céu… Vez em quando, um vaga-lume passava vigiando, vigiando… Depois sumia ao longe fosforescendo… Desde o princípio de minha estadia nesta avenida, percebi que as pessoas, ao passarem por debaixo de minha folhagem, denotavam súbita alegria… Eu via um sorriso flutuando em suas almas… Algumas até paravam um pouquinho bem próximo de mim, levantavam os olhos para minha copa e sorriam… Vez em quando, eu ouvia um sussurro: muito obrigado!
Logo percebi que os meus galhos com tantas folhas juntas formavam uma sombra e todos os seres que vivem na superfície da mãe Terra, amam a sombra de uma árvore! De tanto ver passar esses seres bípedes, aprendi a sua língua e às vezes, bastava o seu olhar para eu compreender os segredos do seu coração… Assim, muitos anos se passaram…
Um dia, de repente, vejo alguém se aproximar com jeito estranho… É um filho de Deus de meia idade, veste um uniforme cáqui e carrega nos ombros uma motosserra! A princípio, fico sem saber o que pensar! Ele se aproxima de meu tronco e liga aquela arma… Um ronco ensurdecedor faz tremer as minhas folhas! Sinto um gelo na medula! Logo entendo… O desconhecido, insensível à minha agonia, aproxima a lâmina da minha haste… Não sei gritar! A mãe natureza não me deu voz! Se pudesse, o meu grito de agonia seria ouvido até o próximo Universo! A dor é muita! Mas o homem não sabe… Por que ele me mata se eu apenas lhe dei sombra? Que mal eu fiz?
Indiferente à minha dor, o estranho ser continua segurando a motosserra contra minha casca… Sinto sua lâmina fria cortando o meu caule… Afiada, ela rasga cada vez mais fundo, cada vez mais, cada vez… Estou indo embora… Está ficando tudo escuro, escuro… O ronco da máquina que corta minha Vida parece soar mais longe, cada vez mais longe, cada vez mais…lon…

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