As engraxatarias completavam a elegância dos itapetininganos

Era uma vez, aqui em Itapetininga, um tempo em que só se usava tênis para fazer ginástica ou para poucos, jogar tênis. Calçado era obrigatoriamente sinônimo de sapato de couro, usado por todos, dos mais pobres aos mais ricos, sem distinção, fossem botinas rangedeiras, de elástico no cano, fabricadas então pelas sapatarias Gensen, Matarazzo, Zequinha, ou lndalécio, Miguel Pucci, ou os sapatos produzidos pelo famoso Tuim, Cauchiolli e outros.
Esse uso generalizado de sapatos de couro levou à ascensão e glória de um serviço que rapidamente se disseminaria pela cidade, o dos engraxates (profissionais). Não se refere nesse caso aos pequenos que circulavam com suas escovas e caixinhas de madeira a tiracolo, em busca de eventuais interessados. Tratava-se dos verdadeiros profissionais que faziam lustrar com perfeição um oficio levado muito a sério e que não raro, passava de pai para filho.
Os dedicados em regime de tempo integral à função, geralmente trabalhavam em salas alugadas ou então nas proximidades de barbearias no centro da cidade, sob o comando de um microempresário que supervisionava de perto os trabalhos e não se fazia de rogado quando também tinha de meter a mão na graxa.
Algumas das engraxatarias de tamanho razoável – como as que funcionavam na rua Monsenhor Soares, próximo ao Cine Itapetininga, antigo Ideal – ou a de Joaquim Pereira na José
Bonifácio, junto ao famoso bar Garcia, eram justamente as mais renomadas. Chegar e instalar-se numa de suas poltronas anatômicas de madeira, podia até aspirar o aroma de loção que vinha da barbearia localizada na José Bonifácio, de propriedade de Pedro Paca e, posteriormente, de Dito (Gamela), originário de Capão Bonito. O cliente podia falar ou manter-se em silêncio. Se preferisse ler, havia os jornais da cidade: “Tribuna Popular”, “Aparecida do Sul” ou “Diário de Itapetininga”, além da Gazeta Esportiva, que se encontravam em disponibilidade. Tomava conhecimento de todos os fatos sucedidos na cidade e também se punha em dia com respeito a atuação dos clubes de futebol locais, primeiro Associação e depois CASI ou DERAC. E quem não queria – ou não sabia ler – , podia ser informado pelo próprio engraxate, a pedido, de tudo que ia da crônica policial até a esportiva, política ou social.
Enquanto isso o serviço propriamente era conduzido. Com as meias do cliente devidamente protegidas por placas de papelão, o profissional seguia uma invariável rotina de trabalho: primeiro, uma limpeza completa e cuidadosa do calçado, com esponja úmida, para retirada de pó e demais sujeiras. Depois, a primeira mão geral de graxa – a chamada pomada inglesa, que era Nugget, custava um pouco mais que a tida por nacional, mas o resultado compensava –, a que se seguia era a escovação geral e completa, a seco. A seguir, vinha a segunda mão de graxa, terceira escovação geral e caprichada, mais uma lambuja de graxa na biqueira e finalização com pano macio para realçar o brilho reduzido e com direito a um batuque executado pelo engraxate com o pano.
Átila, não o rei dos hunos, mas um itapetiningano simpático e que todo carnaval colocava um bloco na rua, possuía a engraxataria na Monsenhor Soares, bem junto ao cinema agora demolido; Joaquim Pereira, pai do bancário José Joaquim Pereira, conduzia a engraxataria na José Bonifácio, onde antes mantinha uma garaparia; Rubião, violonista dos melhores, era proprietário de outra engraxataria no Largo dos Amores, próximo à sede da Viação Cometa e na Campos Sales existia uma engraxataria em que o dirigente era o pai de Roberto, o pasteleiro conhecido em toda cidade.
Todas caracterizavam-se pelo intenso movimento de clientes, pois os cidadãos primavam em andar com os sapatos bem lustrosos, principalmente quando participavam de festas e bailes realizados nos clubes locais.
Agora o uso cada vez mais constante do tênis – modernos e sofisticados – praticamente acabou com as engraxatarias, profissão em extinção, restando as recordações daqueles que exerceram esse trabalho e daqueles que viveram essa fase da vida.

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