As excelências do mestre Florêncio

Um homem por demais simples, mesmo porque seus trajes assim o caracterizavam, ele era considerado um ser humano de alto valor e grande sensibilidade. Negro de raça e de consciência, sempre muito respeitado pela conduta correta – sua marca registrada.
Perambulando pelas ruas, a maioria sem qualquer tipo de calçamento, os moradores viam naquela singular pessoa a “bondade sem nome, apenas conhecido como Mestre Florêncio. Mas, sem dúvida, fabuloso como homem e trabalhador excepcional em qualquer tarefa ou ofício a que fosse convidado a realizar.
Não refutava ou rejeitava serviço algum, fosse de qualquer espécie ou categoria. Limpar quintal, trabalhar na lavoura, auxiliar de limpeza em geral, entregador de encomenda ou cobrança, além de ajudante de pedreiro ou construtor, isto orientado por um engenheiro civil. Enfim, a qualquer cargo a que fosse incumbido, desempenhava com presteza, satisfação e honestidade. Destaque para os preços: cobrava sem exagero e “segundo as posses do freguês”, como narra Galvão Júnior em seu livro sobre Itapetininga e sua história.
Assim se conduziu em toda vida Mestre Florêncio. Mas primava com eficiência em um trabalho que mais adorava e tinha por ela paixão desvairada: construção civil e também pedreiro, profissão que exercia com maior orgulho. Além de seu perfeito trabalho, trazia em sua alma o talento em criar estilos para suas obras, conforme afirmava, na época, o construtor Abrão Sacco, de renome estadual e itapetiningano de coração.
Mestre Florêncio, residente na rua Bernardino de Campo, próxima hoje da sede do DRE, sempre teve seu estado civil ignorado e ninguém sabia da existência de filho, apenas que se dedicava com ardor intenso a qualquer responsabilidade que assumisse com quem quer que fosse.
Aconteceu naquela quadra da vida, início do século XX, que Mestre Florêncio mostrou a Itapetininga e toda região, o potencial de sua preciosidade e qualidade: construiu – quase sozinho – o magnífico e sólido prédio que atualmente abriga a sede da Maçonaria. Lá, em tempos de outrora, funcionou o primeiro teatro da cidade – O São José – no Largo do Rosário. E, nesse espaço ajudou a reformar a Igreja do Rosário – templo- na “época”, servindo a comunidade descendente afro-brasileira. Este templo sempre serviu a grande concentração dos “nossos irmãos”, com atos religiosos, festas e outras atividades cristãs, com grande movimentação.
A atuação de Mestre Florêncio, um herói quase desconhecido, alcançou até a edificação da sede do Clube 13 de Maio, infelizmente fechado e vendido “sem muita justificativa e plausível razão”.
A história de Mestre Florêncio, amigo então de Porfírio Camargo (Tuim), residente no Largo do Rosário e um dos maiores fabricantes de sapatos de alta qualidade na cidade, termina de maneira estranha. Nunca até hoje – soube-se o que sucedeu. Apenas “sumiu” e se foi ficando apenas uma amarga nostalgia. Neste 13 de Maio – data da abolição da escravatura, rendamos as homenagens sinceras e sem preconceitos a todos afrodescendentes que com suas mãos foram também artífices do desenvolvimento de Itapetininga.

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