As festas e um homem só

Inicialmente, e isso não foge à regra, tornou-se comum e tradicional, inserido na cultura universal, proceder eventos festivos que se desenvolvem nas camadas favorecidas pela sorte, em épocas apropriadas, como o Natal e a passagem do ano.
Famílias, nesta última terça-feira, se reuniram à mesa, participando da ceia, degustando vários e saborosos pratos especiais – feitos na própria residência ou encomendados- e as indefectíveis bebidas, em ambiente fino e agradável, demonstrando alto espírito cristão e uma solidariedade irrestrita.
Além da expectativa das crianças em acordar e receber os presentes do Papai Noel, os adultos independentemente de idade, em todas as famílias, efetuaram a brincadeira do “amigo secreto” equiparando ao agrado às crianças com os de maior idade.
Cenário um pouco em desuso, também o presépio, um encanto que os próprios familiares montaram, curtindo as próprias peças consideradas abençoadas.
Almoço com sobremesas, frutas e distribuição de brinquedos, foi ofertado por entidades assistenciais e particulares, “estes solicitando doações de ingredientes para a pomoção dos acontecimentos”. Calcula-se em centenas as crianças destituídas de posses que foram aquinhoadas “com uma boa alimentação e presentes… tudo transcorrido em clima festivo e cheio de bondade”, como acentuou Gerorgina de Lima Raid, uma das vountárias deste louvado trabalho.
Outra demonstração de solidariedade humana foi a proporcionada por Caio (Cacá), altamente religioso e filho do saudoso Ari de Almeida, “o Ari Codorna”. Na praça N.S. Aparecida ofereceu substancial almoço a dezenas de moradores de rua e alcoolatras anonimos. O próprio Cacá “bancou” toda despesa e, com alguns companheiros preparou a suculenta alimentação.

Desacompanhado e ignorado
Considerado épico do cinema, um filme versando inteiramente sobre o Natal, finaliza com o ator Akim Tamiroff na rua, envelhecido e castigado pelo tempo, observando sob intensa nevada e sentidas emoções a “ceia natalina” em que uma familia com dezenas de membros comemorava o nascimento de Cristo.
Veio-nos à lembrança a cena, em razão da existência na cidade de um personagem que há muito perambula pelas ruas locais, completamente desconhecido e sem qualquer identidade. De média estatura, com peso pouco acima de 75 quilos, trajando sempre calça amarela larga e camisa branca, chinelos havaianas, além de barba rala e esbranquiçada, tem como característica o andar sempre rápido “como a procura de alguém ou prestes a apanhar alguma condução”, como observou o comerciante Zécaborba Soares.
Muitas vezes é visto espairecendo-se e alguns bancos das Praças da Matriz, do Rosário ou do Mercado, completamente só e um olhar distante … Sabe-se, segundo rápido diálogo travado, sempre reticente – que ele residiu no litoral sul, criado por um tio, tranferiu-se para S. Miguel Arcanjo, trabalhou em Sorocaba como pedreiro e há muitos anos mudou-se para Itapetininga. Diz que gosta desta cidade e recebe uma pequena aposentadoria. Não tem parentes nenhum, conforme afirmação e nunca se reuniu com a família (que nunca existiu), não sabe cozinhar e nem quer conversar com quem quer que seja. Neste Natal seguiu sua rotina habitual, andando rápido, procurando sempre os bancos para repousar e pouco se incomodando com a azáfama dos transeúntes e veículos. Desconhece-se seu pensamento sobre o mundo, a vida e sua existência. Foi visto na noite de Natal na Avenida Peixoto Gomide, olhando as estrelas, e posteriormente, na entrada do Ano Novo na festa em louvor a Padroeira do Brasil.

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