Boas e culturais filas

“Naquela área estava instituída a “democracia”. Nada havia que fizesse diferença entre os presentes: todos eram iguais perante a S.Excia, a Fila. Homens e mulheres de todas as raças, classes sociais, rostos diversos, operários ou “doutores”, camponeses, idosos, jovens, bem enfileirados. Foram as filas formadoras de opiniões, escola de socialização e cultura para todos os gostos, unindo, embora por escasso tempo, pessoas que talvez, não se encontrem nunca mais.”

Enorme fila toma conta de uma dependência da ex agência da Caixa Econômica Estadual, hoje Banco do Brasil, um dos mais movimentados de Itapetininga e região. Situa-se na Venâncio Aires, em área onde por 56 anos funcionou o Cine Theatro São José, considerado o mais elitizado da cidade, pois sempre foi freqüentado pela considerada alta sociedade local.
Ali, na ampla entrada diversas máquinas para depósitos, pagamentos e saques, grandes maioria de interessados e aposentados aguardam ansiosamente o recebimento da “senha”, que faculta a entrada do cliente na secção onde poderá chegar à respectiva caixa para a transação devida. Trata-se, então, de recebimento dos vencimentos, pagamento de água e luz ou boletos, além de outros encargos a serem resolvidos.
Enquanto aguardam a chamada, através de um painel eletrônico, sentam-se em cadeiras devidamente enfileiras e, alguns, calados, olham atentamente para o cenário em que se encontram sem qualquer interesse, enquanto outros fazem indagações inconsistentes, apenas para “deixar que o tempo corra”. E a perlenga não domina o ambiente, que continua em quietude quase total até o instante da chamada e do atendimento. Cumprida a obrigação, o cliente apressadamente deixa o recinto para regressar em outra oportunidade, que for necessária.
De forma geral, sem dúvida, assim é o procedimento do cliente de qualquer das agências bancárias, tanto aqui, como em todo o território nacional.
No entanto, voltando um pouco no tempo, em épocas já bem distantes, freqüentar essas casas de créditos ou similares, onde se agrupam centenas de pessoas, constituía para muitos, enorme prazer e satisfação.
Ir ao banco vislumbrava-se para eles um passeio inigualável. Todos vestidos em grande estilo e pompa, dispunham-se a enfrentar as famosas filas em pé, certos de que iriam ser penalizados por algumas horas, mas convictos que cumpriam, de bom grado, a tarefa, principalmente os que
recebiam a aposentadoria.
Esses saudosistas que hoje relatam o assunto (e são muitos) tinham a especial preferência pelas filas mais extensas (e não queriam ter prioridades), com maior número de pessoas. Algumas delas formavam voltas para atingir o local do “guichê”.
Naquela área estava instituída a “democracia”. Nada havia que fizesse diferença entre os presentes: todos eram iguais perante a Vossa Excelência: “a Fila”. Homens e mulheres de todas as raças, classes sociais, rostos diversos, operários ou “doutores”, camponeses, idosos, jovens, bem enfileirados. Por vezes, discussões, em razão de algum pretender furar a fila, para ser atendido mais rapidamente; desmaios pelo calor do recinto e até a luta corporal entre duas senhoras, na Rua José Bonifácio, onde se localizava a Caixa Estadual; a intervenção da polícia e… Saborosas piadas contadas por falastrões.
Indubitavelmente, foram as filas formadoras de opiniões, escola de socialização e cultura para todos os gostos, unindo, embora por escasso tempo, pessoas que talvez, não se encontrem nunca mais.

 

A Cavaqueira como entretenimento

O que mais salientava no espetáculo da Fila, residia no relacionamento sem preconceito entre os que se encontravam no local. A observação é feita pelo sociólogo José Luiz Holtz, pois todos se consideravam iguais, discutindo, debatendo e discorrendo sobre assuntos que vão “da briga de casais, calotes, passando por situações econômicas, educação , futebol, religião, política, questiúnculas de vizinhos, segurança, etc. Até a guerra que se desenvolve entre palestinos e judeus, na Faixa de Gaza”.
O tom das vozes, geralmente suaves e baixas, se eleva em certas ocasiões tonitruantes, que surpreendem os presentes. Mas tudo continua, depois calmamente, com comentários diversos.
Efetivamente foram momentos ou horas de descontração para todos, naquelas palestras agradáveis e relaxantes.

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