CAOS URBANO

Os cuidados com o meio ambiente, e a conscientização coletiva, são marcas das mais recentes décadas.
São evidentes os avanços na área ambiental, com a edição de leis, estruturação de órgãos públicos e surgimento de ONGs não voltadas unicamente ao recebimento de verbas oficiais. Apesar de persistirem as agressões ao meio natural, a sociedade já assimilou e participa de ações preservacionistas.
Todos prezam o mico-leão-dourado, as araras, tucanos e tatus, além das espécies vegetais sem valor econômico e nascentes hídricas. Contudo, ainda engatinhamos no zelo com o ambiente urbano, em que somos o principal elemento da paisagem.
Ao contrário das pequenas cidades, onde árvores marcam presença e rendem benefícios à qualidade de vida, não raro pacata e rotineira, nossos centros urbanos seguem ressequidos, trocando árvores frondosas por arbustos paisagísticos. A falta de planejamento fez com que nossas cidades florescessem ao sabor de interesses imobiliários, espontaneidades as mais diversas e, sobretudo, carência de ações oficiais e privadas, herança nefasta da época em que ambientalistas eram tidos como hippies ou alienígenas.
A coleta e destinação do lixo urbano, essencialíssimas em qualquer análise ambiental, pressupostos de ações na área sanitária, ainda são, na maioria dos casos, amadoras e remendadas. O cidadão que possui algum bloco de isopor, embalagem de algum produto que adquiriu, bem sabe que os lixeiros não o coletam, e os recicladores o ignoram. Resta-lhe, de maneira furtiva, reduzir o bloco a pedacinhos, adicionando-os ao lixo orgânico, sem que sejam percebidos.
Multas e prazos, dispensados a prefeituras que não cuidam do tema, padecem de pouca eficácia, e deveriam ser transformadas em multas aos administradores, cujos mandatos poderiam até ser cassados, por omissão de natureza grave. Não são raros os municípios onde as estruturas de saneamento, água e esgoto, inexistem ou são incompletas.
A população corrobora o desprezo pelo ambiente urbano. Lançamentos de resíduos, sucatas e esgotos em terrenos baldios e rios integram nossa paisagem urbana.
A necessidade de crematório ou cemitério animal ainda soa como frescura social, como se a saúde humana fosse resultado apenas do trinômio médico-farmácia-paciente. Pombos são alimentados e reproduzidos, como ícones ambientais, e seguem distribuindo estrumes e doenças.
São poucas, e não raro vandalizadas, as lixeiras, e a queima ainda é o maior saneante urbano. Diminuem as praças e aumentam os pombais humanos, na ânsia de alimentar estatísticas habitacionais e economizar a destinação de áreas públicas.
Integra o ambiente urbano as filas nas estruturas de saúde, a aglomeração e nervosismo nas estruturas de transporte e a generalizada insegurança pública. Nas metrópoles, os gastos com estruturas de trânsito superam quaisquer despesas com outros setores da vida humana.
Integra o ambiente a omissão das autoridades para com os barulhos dos malcriados de sempre, com seus veículos, chácaras, templos, botecos e publicidades. Quem produz poluição sonora comete crime assemelhado àquele que monta uma banca de jogo de bicho em seu portão, distribui bactérias à vizinhança ou viola correspondência alheia.
O ambiente urbano brasileiro é desastroso e pouco civilizado, e ainda habitamos as cavernas, apesar dos celulares, computadores e veículos maravilhosos.

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