“Dom Casmurro”, de Machado de Assis

Por: Daniel Paulo de Souza

Fabulações transformadoras:

À guisa de classificação didática, Machado de Assis (1839-1908) é comumente considerado um autor realista mais pelo contexto histórico no qual viveu do que pelo estilo e pela cosmovisão por ele desenvolvidos. Certo é que, em anos de vasta fortuna crítica sobre ele, há muito se reverencia a modernidade da obra machadiana, à frente de seu tempo, pela maneira particular de deslindar os mistérios humanos e os fatos corriqueiros: a ele não bastava o olhar de superfície, a análise epidérmica, mas, nas suas próprias palavras, “a curiosidade estreita e aguda que descobre o encoberto”. No dizer de Alfredo Bosi, “a originalidade de Machado está em ver por dentro o que o naturalismo veria de fora”, ou, segundo Carlos Faraco, está em “tocar a essência daquilo que observava”.
Publicado em 1899, o livro “Dom Casmurro”, para Helen Caldwell “talvez o maior de todos os romances do continente americano”, é um exemplo inconcusso de que, na empresa da fabulação, o aclamado “bruxo do Cosme Velho” foi exímio analista do comportamento humano. Nele, Bento Santiago, o narrador personagem, propõe “atar as duas pontas da vida”, isto é, “restaurar na velhice a adolescência”, pois, com isso, acreditava superar a melancolia e uma certa falta de si mesmo que os anos produziram. Ademais, a escrita também poderia vencer-lhe a monotonia dos afazeres da senilidade e fazê-lo reconstituir os “tempos idos” já destituídos não só dos encantos, mas também das moléstias de outrora.
Na aparência, tudo leva a uma intriga quase comum: de regresso aos seus quinze anos, o narrador, carinhosamente alcunhado de Bentinho, escutou às escondidas que em breve seria realizada a promessa feita pela mãe, a de torná-lo padre. Não fosse a paixão que ele alimentava pela vizinha Capitu, e retribuída pela amiga de infância, aquele episódio selaria a decisão religiosa de D. Glória, com o filho feito sacerdote e a benevolência divina paga a contento. Decorre que ambos, Bentinho e Capitu, já unidos por juras de amor, passaram a imaginar meios de reverter o compromisso do seminário. Ironicamente, a moça, que aos quatorze anos já possuía “ideias atrevidas” e “sabia pensar claro e depressa”, sugeriu o auxílio do agregado José Dias, o responsável pela lembrança da obrigação eclesiástica.
A história, no entanto, não permanece nessa simples retomada de memórias, nesse drama da escolha entre o dever materno e o amor recém-descoberto. Conforme analisa Roberto Schwarz, “o livro tem algo de armadilha”, pois gradualmente desvela variadas situações que formarão um “enigma” a cujas pistas o leitor só tem acesso por meio da perspectiva do próprio Bentinho. Percebe-se, nesse ponto, uma condição correlata à análise da arte do desenho feita por Paul Valéry, quando afirma que “há uma imensa diferença entre ver uma coisa sem o lápis na mão e vê-la desenhando-a”. No horizonte narrativo, dá-se algo parecido: é bem distinto falar de fatos observados com isenção panorâmica e vivê-los na carne antes de contá-los. Em suma, são duas coisas diferentes o que se vê.
A narração desse romance em primeira pessoa favorece, de acordo com Schwarz, a aparição de “incongruências, passos obscuros, ênfases desconcertantes” que conduzem ao enigma. De repente, o menino recatado e tímido, que desafortunadamente não consegue fugir ao dever do seminário, mas que parte para lá com o juramento de desposar Capitu ao término de uma breve estadia, começa a ter acessos de ciúmes cultivados pela imaginação. Entra em cena, na intimidade da alma do protagonista, o amigo Escobar.
Paulatinamente, a alegria da amada a brincar com os “peraltas do bairro”, o dandy que atravessa a cavalo a frente da casa, a visada “com tal força e concentração” para o mar, o amigo muito presente e, mesmo defunto, gravado na efígie do filho Ezequiel, tudo passa a revelar um Bentinho inseguro e quase convencido da veracidade do epíteto que José Dias deu aos olhos de Capitu, “de cigana oblíqua e dissimulada”. Ele próprio admite que a verossimilhança “é muita vez toda a verdade” e que o leitor, à vista do descontínuo relato do autor, pode preencher lacunas na história já que “tudo se pode meter nos livros omissos”.
Aqui reside uma das grandes qualidades de Machado de Assis: ele arrebata pelas sutilezas, pelas nuances do discurso que, criteriosamente construído, suscita o duplo, o ambíguo. A própria disposição factual dicotômica de “Dom Casmurro” é um convite à dubiedade: o protagonista deseja atar a velhice à adolescência; vive no Engenho Novo a replica da casa de Matacavalos; escreve como analista e alvo da própria investigação; luta pelo matrimônio em detrimento do sacerdócio; vê, no desenrolar da intriga, duas pessoas, Capitu menina e Capitu mulher, diante das quais indaga se a segunda já pudesse estar contida na primeira; enfim, sacramenta uma traição que pode ou não ter ocorrido.
Tal processo de emprego das sutilezas começa na enunciação, que corrobora para fomentar interpretações díspares do itinerário dos personagens. É inegável que o fraseado machadiano transborda sagacidade analítica. Ao descrever José Dias, por exemplo, o texto traz a ideia de que “as cortesias que fizesse vinham antes do cálculo que da índole”, o que atribui ao agregado uma pantomima social vazia feita somente das aparências bajuladoras. Mais adiante, depois da experiência do primeiro beijo, Bentinho diz que “todos os meus nervos me disseram que homens não são padres”, numa referência à sensação corporal que o contato íntimo produz e que é contrária aos votos de abnegação carnal de um sacerdote. Não por acaso, Bentinho chega a comemorar com um sonoro “Sou homem!” em alusão ao reconhecimento peremptório de que não tinha mesmo vocação para o presbiterado. E não à toa ele chega a afirmar que a sua imaginação, além de ter sido “a companheira” de toda a sua existência, era “uma grande égua ibera; a menor brisa lhe dava um potro”.
Fato é que essas sutilezas discursivas dão mais substância à tese da modernidade de Machado e da posição vanguardista de “Dom Casmurro” comparado às publicações realistas da época. Até falta à obra “o flagrante delito da infração”, conforme aponta Silviano Santiago referindo-se à consumação do adultério no Realismo. Outrossim, “o foco da trama propicia apenas o conhecimento dramático do comportamento do marido ciumento”. Dessa forma, o bom moço, o filho obediente, educado no catolicismo, posteriormente bacharel em Direito e fiel à esposa, fica, como destaca Schwarz, “ele próprio sob suspeição, credor de toda a desconfiança disponível”, ainda que busque a cumplicidade e a empatia de quem o lê.
Não se deve esquecer que esse texto nos legou uma das figuras femininas mais fortes de toda a literatura. Para Lúcia Miguel-Pereira, Sofia, de “Quincas Borba”, e Capitu “são as mulheres mais mulheres dos romances de Machado”. Apesar de o agregado tê-la como “desmiolada” e “tontinha”, com “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, ela é o antípoda de Bentinho: de raciocínio ágil, segura, sempre arma fuga às situações de criança (a da inscrição no muro, a do penteado ou a do beijo). Mulher forte, cuidou da casa e do pai quando este enviuvou. No mais, suportou a pressão dos anos para casar-se com o seu amor de infância. Ao cabo, tornou-se a “flor caprichosa de um fruto sadio e doce” ainda que portadora de “olhos de ressaca”, aqueles dotados de um “fluido misterioso e enérgico”, cuja força, como as vagas, arrasta para dentro.
A dinâmica de “Dom Casmurro” não permite conclusão definitiva sobre a existência de um triângulo amoroso. Dito isso, a desconfiança perene trazida à luz pela dubiedade continuará estimulando análises que defendem posições antagônicas, mas que realçam a significação dessa genial narrativa. Machado de Assis, um dos maiores de todos os tempos, também ostenta olhos penetrantes, mas daquela feita que tudo traga para tudo decifrar.

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