Fabulações transformadoras: “Ensaio sobre a cegueira”, de José Saramago

Por Daniel Paulo de Souza

Parado em um semáforo, à espera do término da travessia dos pedestres, um motorista viu-se aturdido por um desespero petrificante: acabara de ficar cego, repentinamente vitimado por uma cegueira anormal, branca, cuja condição o mergulhava visualmente em um “mar de leite”. Essa trágica privação das imagens luminosas captadas pela retina levou-o a buscar o auxílio de um médico, que estranhamente lhe atesta a completa saúde dos olhos, mas lhe confirma a inexplicável perda da visão. Insolitamente, esse cego não passa a ser o único, visto que, pouco a pouco, essa inusitada cegueira alastra-se e torna-se uma epidemia sem que haja uma elucidação plausível para a sua origem ou transmissibilidade.
Esse é o mote narrativo do aclamado romance “Ensaio sobre a cegueira”, do escritor português José Saramago, publicado em 1995. O enredo apresenta essa incômoda condição a que as pessoas foram submetidas associada às ações praticadas para tentar lidar com ela, seja para traçar estratégias que contenham o avanço da cegueira e, por consequência, protejam os sadios, seja para, malogradas as tentativas, sobreviver a uma realidade na qual todos os indivíduos sofrem do “mal-branco” e o “inferno prometido” está próximo de “principiar”. Com base nessa intriga, o texto realiza uma série de imersões reflexivas acerca da natureza humana, principalmente ao mostrar que as adversidades por vezes são tão violentas que chegam a colocar à prova os limites da moralidade.
José Saramago (1922-2010), arguto expoente da arte narrativa contemporânea e até hoje o único autor em língua portuguesa a receber o prêmio Nobel de Literatura, é dono de um estilo envolvente e de uma singular perícia analítica do comportamento social e dos valores que a partir dele emergem. Das diferentes virtudes do prestigiado escritor lusitano, é importante dar especial destaque ao manejo dos recursos da língua na enunciação e a um exame crítico já consubstanciado ao tecido ficcional, como na irônica parábola do “olho que se recusa a reconhecer a sua própria ausência”, com a qual um cego debocha do hábito da negação da incapacidade.
Quanto à linguagem, segundo Leyla Perrone-Moisés, a fluidez da escrita de Saramago resulta de uma “engenhosa aliança do erudito com o popular”, favorecida não só pelo uso de expressões colhidas do gosto ordinário, mas também pelas estruturas frasais mais longas que elidem a pontuação tradicional. Esta última característica, aliás, a da supressão das marcas convencionais do discurso direto (dos travessões, das exclamações, das interrogações, dos dois-pontos e do ponto final), para além de uma tendência vanguardista, é o traço de uma prosa fincada na oralidade e, de acordo com Perrone-Moisés, “proferida com larguíssimo fôlego”.
Quanto ao desenvolvimento dos temas, o leitor não encontra, nos textos do autor português, sutilezas ou descrições comedidas, sobretudo em se tratando de “Ensaio sobre a cegueira”. Essa obra, ao passo que relata a “brancura leitosa” tomando conta da visão dos personagens, descortina gradualmente uma imagem decadente do ser humano e uma metáfora escatológica do mundo. Os indícios dessa abordagem aparecem cedo na história. Por exemplo, na conduta do homem que se dispôs a ajudar o primeiro cego apenas para lhe roubar o carro, ou na decepção do médico que, já acometido do mal-branco e empenhado em gerar um alerta nacional sobre a questão, é ignorado pelo funcionário do Ministério da Saúde e, por isso, conclui que “é desta massa que somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade”.
Depois que a situação de contágio começou a fugir do controle e a alarmar as autoridades, cuja compreensão não visava aos doentes, mas à preservação dos saudáveis, aventou-se o plano de isolar os contaminados e os suspeitos em um manicômio abandonado que não teve a sua estrutura testada ou preparada para receber tantas pessoas cegas. Ali elas seriam abandonadas à própria sorte na expectativa de que a epidemia se resolvesse com a eliminação de quem a propagava, afinal “morrendo o bicho acabava-se a peçonha”.
Não demorou muito para o lugar ficar superlotado e fétido, com excrementos espalhados pelos corredores, camas com lençóis imundos e cheios de “dejeções”, corpos “macerados no seu próprio suor”, atmosfera “nauseabunda” com gases dos alívios matinais e “lufadas” vindas das latrinas, água suja retornada dos escoadouros, duchas entupidas, podridão dos cadáveres insepultos e outras abjeções. Somados a esse cenário estão os disparates humanos: roubo de comida, abusos físicos, ameaças, assassinatos e fome condicionada pelo egoísmo alheio. Nas palavras da mulher do médico, única personagem que não cegou e se fingiu doente para não abandonar o cônjuge, “o mundo está todo aqui”.
O manicômio configurou-se como um microcosmo da realidade exterior, que também estava desordenada desde que todos haviam cegado. Sem olhos, a humanidade cedia a instintos incivilizados de sobrevivência. Na falta da visão, o medo de ser vítima desse novo real insólito levava à conformação ao caos, ao abandono dos sentimentos e da caridade, à transformação de todos em “cegos sem retóricas nem comiserações”. Em síntese, conforme disse Primo Levi, “àqueles que perderam tudo ocorre que se perdem a si mesmos”. No caso do “Ensaio”, a cegueira não representa apenas uma carência fisiológica ou um descompasso do nervo óptico, mas também, por extensão, uma perda dos costumes, da racionalidade e da identidade, a ponto de não tardar “que comecemos a não saber quem somos” e que não nos sirvam mais os nomes, porquanto, assim como os cães, o nosso reconhecimento passaria a ser pelo cheiro, “pelo ladrar, pelo falar”.
Nessa esteira, se o problema visual a que alude o romance for tomado como signo do alheamento, é possível resgatar, para fim de análise, a associação clássica entre as sensações e a intelecção da realidade. Gerd Bornheim nos lembra que, na Grécia antiga, “o ver e o conhecer estão intimamente ligados”. Em Aristóteles, por exemplo, especificamente na sua “Metafísica”, encontramos a ideia de que a visão é o sentido que “melhor nos faz conhecer as coisas e mais diferenças nos descobre”, por conseguinte ela é uma abertura privilegiada para um campo de experiências que posteriormente serão gravadas na memória. Para Epicuro e Lucrécio, como destaca Alfredo Bosi, “o mundo se dá ao olho humano”, logo conhecer é ser invadido “pelas imagens errantes de um cosmos luminoso”.
Considerando essa ideia da relevância do olhar e da sua conexão com a construção do conhecimento, é possível vincular simbolicamente, quando falamos de “Ensaio sobre a cegueira”, a ausência da visão a uma espécie de “cegueira do entendimento”. É como se a perda desse órgão do sentido remetesse à privação do potencial de compreensão propriamente dito, já que ela subtrai do sujeito a capacidade contemplativa tão cara ao despertar da admiração frente ao espetáculo do mundo. Trata-se de uma “alegoria da caverna” de Platão às avessas, porque a narrativa, ao concluir que “já éramos cegos” antes da cegueira e que “estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem”, salienta não a saída em direção à luz das verdades inteligíveis, mas o regresso à coabitação do espaço das sombras, à aceitação de simulacros como realidade.
A inconfundível “capacidade de fabular” de José Saramago, como destaca Leyla Perrone-Moisés, transporta o leitor, com eficiência e pleno “domínio da lógica discursiva”, aos dilemas morais que emergem das situações mais limites. Munido da racionalidade e do distanciamento analítico permitido pela obra literária, resta-lhe a autocrítica e a consciência da “responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam”.

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