Fabulações transformadoras: “Romanceiro da Inconfidência”, de Cecília Meireles

Prof. Dr. Daniel Paulo de Souza.

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche, em sua “Genealogia da moral”, entende que o esquecimento não é uma força inercial passiva, mas “uma força inibidora ativa, positiva no mais rigoroso sentido”, ou seja, “uma forma de saúde forte” por meio da qual o homem não fica preso a deveres impostos que lhe tolhem a liberdade. Para ele, não há felicidade, jovialidade ou esperança sem o esquecimento que nos afiança transformar o que somos.

É justamente a partir desse vigor e dessa plasticidade do esquecimento, definido pela filosofia nietzschiana como ato que relega a fraqueza para acentuar a força, que aqui se apresenta o “Romanceiro da Inconfidência”, de Cecília Meireles, cujos poemas compõem uma visada peculiar a um episódio conhecido da história colonial brasileira, a chamada Inconfidência Mineira. Paulatinamente os versos do “Romanceiro” recriam, com carga épica narrativa, não só o cenário e os personagens desse fato histórico, mas também a ambientação, as motivações, os dramas, as tragédias e as consequências líricas da revolta que eternizou certos poetas e conspiradores empenhados na luta pela liberdade. Nessa esteira, a obra se propõe a resgatar um mundo “que se perde nas lápides escritas” e uma memória “pálida e morta” que já não viceja, pois perdida se encontra no “armado pó que finge eternidade”. Para tanto, a poesia torna-se recurso estético para restabelecer um passado quase à deriva e enterrar definitivamente a passividade dos seus diversos partícipes.

A poética de Cecília Meireles (1901-1964), uma das vozes femininas mais valiosas de nossa literatura, conseguiu, ao longo de mais de quarenta anos de exercício do verso, representar um painel da “vida em sua plena manifestação”, conforme indica Darcy Damasceno. Do universo às gentes, do mar aos casarões, da pedra ao caramujo, a obra de Cecília poderia chamar-se “inventário da vida”, nas palavras de Damasceno, em virtude dos variados interesses temáticos que possui e da visibilidade que deu às criaturas e às coisas. Seu olhar, atento ao espetáculo do mundo, personificou a potência visível a que se propõe a própria poesia, cujo trabalho perpetua uma certa aparência dos seres num instante único.

No “Romanceiro da Inconfidência”, obra de maior envergadura de Cecília Meireles e publicada em 1953, esse potencial visual se matura na proeminência lírica de elementos comumente tidos como secundários. A própria temática da saga dos inconfidentes, que na prática não chegaram a deflagrar um movimento, ilustra isso. No início, por exemplo, o “Romanceiro”, livro composto por noventa e seis textos, sendo oitenta e cinco romances, cujo gênero tem origem medieval e remete às narrativas breves sob a forma de poemas épico-líricos, dá destaque à memória, à natureza, ao ouro e às intrigas ligadas à mineração, elementos que ajudam a construir o itinerário conturbado que redundará na conjuração. Até a emergência vaga da mão do Alferes, “do tempo desprendida”, convida ao reavivamento do passado e evoca essa preocupação com a nitidez ocular do alegórico. Como pontua Alfredo Bosi, “o que veio ao primeiro plano foi a unidade que abraça todas as diversidades e, de algum modo, as funde, sejam quais forem os objetos da evocação”.

É importante notar que essa unidade frente à diversidade não impossibilita a leitura dos romances separados, visto que cada qual comporta uma organização temática independente. No “Romanceiro”, como mostra Bosi, “tudo são passagens, episódios, descontinuidades”, entretanto uma linha temporal e discursiva mantém a atenção do leitor: a compreensão das “intrigas de ouro e de sonho” que pactuam na formação do “sinistro” vinte e um de abril. E dessa exploração poética de um referencial histórico nasce uma obra de lirismo pungente e de subjetividade latente, em cujo desenvolvimento estão presentes questões relacionadas à ambição, à lealdade às causas coletivas e à decadência da liberdade.

Do momento em que o ouro despontou da terra, fez reluzir nas pessoas a ganância desmedida. Como sublinham os primeiros romances, a ambição era tamanha que os “homens alucinados”, já exploradores uns dos outros, abandonavam o companheirismo e o parentesco para alimentar a rivalidade. O chamado “ouro incansável” deixa os “olhos já sem clareza” e os “lábios secos e amargos”. Nem a possibilidade da morte era obstáculo, pois, insaciáveis, esses homens “ficam mortos, mas não fartos”. Não à toa ele está na gênese de todos os conflitos e, “de seu calmo esconderijo”, torna-se “prestígio” e “poder” até corromper o caráter, apresentando-se paradoxalmente como aquele que “é tão claro! – e turva tudo: / honra, amor e pensamento”.

O episódio mais emblemático acerca dessa corrida ambiciosa é o da donzela assassinada pelo próprio pai: enamorada de alguém de condição desigual, foi morta com um punhal de “gume de ouro, punho de ouro”; há tanto tempo já falecida, permanece na eternidade a penar, como tantos que foram oprimidos pela opulência e pelos impostos abusivos decorrentes da riqueza ilusória dos metais. Na voz de Chica da Silva também se encontra a denúncia da maldade do Conde de Valadares e, por extensão, o resumo dessa histeria coletiva regada a pedras preciosas: por fim, ela diz, os “marotos do Reino” só querem recolher o “fruto das grotas”; enquanto gastam na corte, a morte fica “aqui pelas catas, / desmoronando barrancos, / engrossando as enxurradas”.

A transmutação dos metais de matéria-prima em igrejas, altares e coroas, na mesma medida que gerou a ambição, também alimentou a resistência. A partir do romance XX, ou “Do país da Arcádia”, inicia-se a marcha da conspiração sob a égide das ideias dos poetas árcades, “das palavras que se interpretam / nos discursos” proferidos em cantos diversos. As “doces invenções da Arcádia” faziam esperançosos os que queriam libertar-se do jugo real e culminaram na “Bandeira da Inconfidência” (romance XXIV), a da “liberdade ainda que tarde”, afinal a liberdade é a palavra alimentada pelo sonho humano a qual “não há ninguém que explique, / e ninguém que não entenda”. Entra em cena o animoso Alferes.

Porém, a ousadia do movimento, resumido a uma sedução exclusiva do discurso, desbarata-se com a denúncia de Joaquim Silvério (romance XXVIII), o “traiçoeiro invejoso” que “junta às ambições a astúcia” porque obteve da delação um lucro bem alto. Por esse motivo, é comparado ao traidor: “Melhor negócio que Judas / fazes tu, Joaquim Silvério! / Pois ele encontra remorso, / coisa que não te acontece”. Daí em diante, malogram-se os planos revolucionários, e o prenúncio dos infortúnios previstos aos envolvidos é inevitável. Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, é prontamente questionado (“Todos querem liberdade, / mas quem por ela trabalha?”), e sua solidão, ainda que em firme propósito, marca a vitória da cobiça. Ao cabo, resta a poética do lamento na “Fala aos pusilânimes”, cuja fraqueza não lhes permite recordar os sonhos ou confessar as palavras, ou na entrega de Cláudio Manuel da Costa, ou no desencanto de Tomás Antônio Gonzaga e de Marília, ou na “reflexão dos justos”, em cujos versos se percebe que todo o trabalho foi em vão, pois a causa se perdeu. Enfim, a Arcádia foi só uma ilusão literária.

Embora estruturado como narrativa épica, em linguagem simples e ritmada, o “Romanceiro” transborda lirismo e dá visibilidade a quem, longe da experiência estética da poesia, desapareceria na poeira impiedosa da História. Do carcereiro aos cavalos da Inconfidência, que transportaram pessoas, sonhos e até o Alferes cortado, a obra projeta o esquecimento da passividade para valorar a força de todos os que compuseram o panorama da conjuração de Vila Rica. De acordo com Ilka Brunhilde Laurito, “o poema é uma grande interrogação do ser no tempo em relação ao Tempo que o transcende”. Nos versos de Cecília Meireles, as vozes que os perpassam têm vontade e têm potência.

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