Gosto de ser da rua Campos Sales

Não se trata de nenhum Bom Retiro onde se situa a Rua José Paulino, e muito menos uma das vias públicas de Tel-Aviv- Jerusalem, em Israel. Refere-se, pura e claramente aqui na Itapetininga centenária e tradicional centro educativo, cognominada ainda “Terra das Escolas”, da turbulenta, famosa e valorizada rua Campos Sales, atualmente modernizada e diferente daquela de muitos anos que ficaram para trás.
Pois nesta principal rua, que dá acesso a quase todas ramificações de Itapetininga, morou o cidadão Bereck Grajkar, um brasileiro de quatro costados, amante e admirador do solo onde nasceu e onde seus saudosos pais se radicaram nesta mesma Campos Sales, vindos da convulsionada Israel, há muitas décadas. Moshe e sua esposa, adolescentes, suportando longa, tediosa e sofrida viagem de “vapor”, desembarcando do Porto de Santos, desceram do trem da antiga Sorocabana, divisando com esperançosa expectativa a cidade onde se estabeleceriam e se tornaria a concretização de seus sonhos.
Dedicou-se, primeiramente à venda de roupas feitas e calçados, batendo de porta em porta oferecendo seus produtos, por todas ruas e arrabaldes de Itapetininga, ao lado do também imigrante Karnig Bazarian. Foi assim que Moshe Grajkar iniciou sua vitoriosa caminhada no ramo comercial, tornando-se conhecido e admirado por toda população local.
Uma loja de tecidos, armarinhos e miudezas constituiu o primeiro estabelecimento do Moshe – o primeiro e único, na Campos Sales.
Como vizinhos, em casas residenciais, teve entre outros o Cel. Antônio Vieira Sobrinho, político de prestígio da região, Dr. Anibal Teixeira, com consultório médico na mesma via, Roque Albino, o lendário jornaleiro, José Campinho, fundador do jornal Aparecida do Sul e construtor de Horto Religioso, Camilo Lelis e Pacheco, proprietários de livrarias e gráficas, Karnig Bazarian, Aristeu Scott com sapataria e Isaac Ferman.
O primogênito de Moshe, Bereck, figura como testemunha ocular de todos acontecimentos ocorridos na rua Campos Sales, coadjuvado pelo recentemente falecido Roque Guilherme, que também foi morador na mesma via pública. Seu pai, o quase folclórico Moshe, estimado pela população, mantinha a Loja do Povo, onde vendia toda espécie de artigos – tanto masculino como feminino – oferecendo tudo para todos pelo sistema daquela época, anotação das vendas em papel colocados em gancho de razoável altura. “À medida que iam sendo pagos, eram rasgados”.
O estabelecimento foi assiduamente frequentado, quase todos os dias, por gratos amigos, autoridades do setor judiciário, policial, eclesiástico – de qualquer religião -, além da presença de professores, advogados e médicos. “Era uma verdadeira Babel na loja do Moshe, tal quantidade e qualidade daqueles que batiam ponto no local”, como comentava sempre o saudoso comerciante Oswaldo Piedade.
Bereck Grajkar, sempre gosta de citar com detalhes os moradores da Campos Sales, suas atividades e os proprietários. Sua amizade estendia-se a todas as categorias sociais da cidade. Praticava com maestria o futebol, em times estudantis e na Associação Atlética, além de se dedicar ao basquete e a natação. Por algum tempo instalou-se com fábrica de blusas, masculina e feminina no Bom Retiro, capital, mas seu amor sempre esteve voltado para a sua Itapetininga e, especialmente, a adorável Campos Sales, onde sempre repetia sempre a afirmação, que saía do fundo de sua alma: Meu gosto é pertencer a Campos Sales.

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