MANTENDO HÁBITOS

Contrariando a regra geral de mudança quase generalizada de hábitos, optamos por preservar alguns vícios e esquisitices, em 2014.
Exceto pelo incômodo aos que aguardam a vaga, não vemos crime algum em continuarmos indo ao banheiro, portando o jornal do dia. É bem melhor a leitura de qualquer texto que o vislumbre da cena, sempre a mesma, de azulejos e cantos inertes.
Ainda que condoídos pelo sofrimento da família, pretendemos continuar ouvindo CDs de Cauby Peixoto, e tantos outros que compõem nossa precária coleção. Os filhos, críticos contumazes de nossas preferências musicais, pediram desculpas quando souberam que o pai de um colega confessou adorar Luan Santana e Netinho.
Hábito de décadas, continuaremos guardando a sete chaves as calças velhas, camisetas tortas, meias pouco furadas e botinas ventiladas, que mantiveram intacta a sola. Vestes idosas são de incrível conforto, a duras custas moldadas às imperfeições dos usuários. Existe uma universal, ingrata e irritante mania de descartá-las.
Continuaremos votando nas oposições, pois é melhor arriscar uma melhora que garantir o desastre. Oposições, talvez por descompromissadas, são em geral mais simpáticas.
Persistiremos sem comprar fiado, não acumulando carnês. Além dos altos juros, sempre praticados e pouco confessados, as parcelas acabam sendo rotineiramente esquecidas e pagas com atraso de um ou dois dias.
É impossível deixarmos de ser sovinas, característica nata irrevogável e incontornável. Vamos seguir apagando luzes, fechando torneiras e desligando equipamentos sem nenhum operador.
Manteremos nossa fidelidade ao golzinho 1.0, ano 2002, agora apelidado de Urbano, pelo fato de não suportar percursos superiores a 30 km, ininterruptos. Na cidade, vai e volta, como o faz qualquer Camaro ou Mercedes.
Seguiremos os conselhos de nosso fumante cardiologista, que prefere a diminuição gradativa do consumo ao risco de enfarte ou AVC, consequentes de traumas da abstinência. Continuaremos andando bastante, enquanto o preço da gasolina permitir.
Continuaremos sem a ingestão de álcool. No quarteirão, somos os únicos que não bebem, e os únicos com feição de bêbados.
Persistiremos desrespeitando a Constituição, no julgamento pessoal de autoridades. Elas são presumidas culpadas, até que provem inocência.
Não pretendemos qualquer reação ou artifício capaz de debelar o sono, entidade mágica que faz com que durmamos até em caminhão de mudança. Quando ele chega, não existem crises na bolsa de Nova Iorque ou notícia de renúncia coletiva, em Brasília, capaz de debelá-lo.
Estaremos, mais uma vez, distantes das academias de artes marciais, praticando tão sómente a modalidade 100 metros rasos, imbatível em termos de defesa pessoal. Quem a pratica não bate, mas também não apanha.
E assim vamos entrando em 2014, com os mesmos vícios e esquisitices de 2013.

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