O armênio que fincou pés em Itapetininga

Na movimentada e turbulenta rua principal do comércio itapetiningano, a “Campos Sales”, desponta, ainda altaneira e soberana, construção inimitável. Funciona agora uma farmácia, mas há décadas atrás era conhecida como a festejada Casa Armênia, um dos estabelecimentos mais famosos da cidade e região, mercê dos luxuosos e modernos artigos que oferecia à grande freguesia. Roupas feitas, artigos de couro, miudezas, servindo tanto ao gênero feminino como ao masculino e crianças.
Por que Casa Armênia? O nome lembrava o país europeu, origem de seu proprietário e fundador Karnig Bazarian, chegado a Itapetininga em meados do século XX, A Armênia, cuja população recorda nesta sexta-feira 24, um século do genocídio perpetrado pelo Império Otomano. A maioria dos historiadores narram o massacre de 1,5 milhões de armênios sob o domínio turco e projetam esta tragédia ao mundo todo, buscando “compreensão e justiça”.
Pois nesta época, na década de 1920 é que desembarcou em Itapetininga Karnig Bazarian, casado e com filhos nascidos nesta terra, então cognominada “Das Escolas”. Homem de valor incontestável, iniciou seu trabalho como mascate, vendendo miudezas e roupas, não só nas ruas desta localidade como em outros municípios vizinhos, incursionando também na zona rural, onde era recebido com “alegria e prazer”. Com esforço, trabalho, abnegação e enfrentando todas as barreiras, conseguiu se estabelecer com pequena loja na Saldanha Marinho, esquina com a Barbosa Franco, gradativamente com os negócios prosperando.
Em 1937 foi seu ano mais feliz. Construiu o sobrado na rua Campos Sales, com vistas para a bela Avenida Peixoto Gomide, instalando com brilho a Casa Armênia, símbolo também do progresso local. Benquisto na cidade e estimado pelo povo, granjeando vasto círculo de amigos, em homenagem a Itapetininga idealizou e construiu a Fundação Karnig Bazarian, na década de 70, sob a direção do genro Avedis Karabachian. Hoje a entidade, com diversos cursos e sob firme direção de Eliel Ramos Maurício, figura como um dos grandes estabelecimentos de ensino do Estado de S.Paulo e referência em estados brasileiros.
Depois de Karnig Bazarian, cujo pai dirigiu uma pequena loja em modesta sala ao lado do Clube Venâncio Aires, vieram armênios da família de Sabodjean, instalando-se com lojas de calçados na rua Saldanha Marinho, esquina com a José Bonifácio e Campos Sales, frente ao extinto Cine São Pedro. Apelidado de Vicente Turco, este jovem armênio, formou-se contabilista na Escola de Comércio e destacou-se como grande atleta, não só como ponta-esquerda no futebol como no pedestrianismo ao lado do saudoso Geraldo Franco e Canarinho.
Um dos Bazarian, com destaque internacional, repousa no nome de Jacob Bazarian, filósofo, autor de 20 livros e centenas de artigos, sendo suas obras traduzidas para diversos países. Figura considerada de alto nível político foi eleito deputado para o Parlamento da União Soviética. Professor, entre outros estabelecimentos, na capital paulista, na Fundação Karnig Bazarian. Personalidade de projeção integrou grupos políticos, foi um dos fundadores da Associação dos Jornalistas, Museu de Imagem e Som, Casa da Cultura e Centro de Estudos Políticos.
Nesta última sessão na Câmara Municipal, os vereadores Jair Sene e Fuad Abrão Isaac, tiveram aprovado o projeto que dá o nome de Jacob Bazarian a uma das ruas da cidade, extamente em frente a FKB, homenageando não só o ilustre filósofo, como a toda nação armênica.

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