O Plangente som da “Santa Cecília”

A música, divina música, era ouvida através das inesquecíveis ondas do patrimônio da cidade, a PRD-9, Difusora local, naqueles conturbados anos de 1940, época marcada pelo conflito da 2ª Guerra Mundial. A estação de rádio, adquirida pelos cidadãos Bartolomeu Rossi e João Simões, havia sido inaugurada recentemente, premiando Itapetininga e região com programas que satisfaziam a qualquer classe social. Esportes, jornalismo, religião, musicais, educação, sertanejo, literário, e atrações apresentadas em seu auditório, como rádio-novela, calouros, estudantis e até espetáculos circenses. Considerada como uma “Rádio Nacional” do Rio de Janeiro constituía-se uma das líderes do interior de S. Paulo.
Mas, na grade de suas atrações, destacava-se a impecável e deslumbrante Orquestra Sinfônica Santa Cecília, formada e regida pelo ínclito e competente professor maestro Durvalino da Costa e Silva, conhecido e admirado em todo território paulista. Essa Grande Orquestra Sinfônica foi o resultado magnífico do incansável trabalho de idealismo do ilustrado professor Durvalino – residente então na Rua Saldanha Marinho. Ele conseguiu organizar com o auxílio de verdadeiros artistas, moradores nesta cidade, uma das maiores exponenciais musicais do interior do Estado de S. Paulo, tornando-se orgulho e honra para Itapetininga, assim como a sua Escola Normal “Peixoto Gomide”.
A Grande Orquestra Sinfônica Sta. Cecília era formada pelos músicos que nada recebiam pelo seu trabalho: D. Filhinha Marcondes Ramos, piano; professora Rosália Castro Picchi, Briano, Arnaldo de Almeida Morais, José Ferrari, Juventino Bicudo, Rafael Pascoal, Joaquim Pinto e Margarida Leonel, violinos; prof. Francisco Válio e Joaquim Picchi contra-baixo; Waldemar Lucchesi, violoncelo; João Bueno de Oliveira e Eduardo Morais, flautas; Pascoal Talarico e Eugênio Dias Batista Gonçalves, clarinetas; Benedito Pompeu de Jesus e Argemiro Dias Gonçalves, pistões; Pedro de Oliveira, oboé; Aristeu Rosa e Demétrio da Costa e Silva, trompas; José Pedro de Oliveira e Idalino Franci, trombones e Oscar Franci, bateria. “Toda essa plêiade sob a batuta do professor Durvalino, um abnegado maestro, artista consagrado nos meios musicais de S. Paulo. O professor Durvalino também esteve durante muitos anos à frente da tradicional Banda N. S. do Rosário, uma das mais conhecidas da região, sendo a corporação sobrevivido praticamente com recursos financeiros do próprio maestro. Apresentando-se periodicamente no auditório da PRD-9, além de clubes locais e cidades do Estado, a Sinfônica executava peças musicais clássicas e populares como, entre outras, Britaneous-Ouverture de A. Scassola; Sonho de Valsa – Valsa da Opereta de Oscar Strauss; Ave-Maria de Pietro Mascagni; Imortal – Grande Valsa de Strauss, Trecho Imitativo de Vicenzo Billi; Poéte e Paysan, (o poeta e o aldeão) – Ouverture de Von-Suppé. Isto sem falar dos clássicos brasileiros como Canta Brasil, Tico-Tico no fubá; Cidade Maravilhosa; Aquarela do Brasil; Carinhoso; etc.
A música, a mais divina das artes – por isso mesmo que imaterial – apenas pressentida pela emoção, teve, com a Grande Orquestra Sinfônica de Itapetininga, o mundo vasto de harmonias inéditas, de sons infinitos, de que se poderia utilizar para criações extraordinárias dessas que deram imortalidade a Beethoven, Chopin, Liszt, Schubert, Bach e outros tantos.
A Orquestra Sinfônica Santa Cecília, embora de pouca existência, mas consagrada para sempre, constituiu uma láurea para Itapetininga que se consagrava como verdadeira Terra da Cultura. “Marcante foi sua trajetória naqueles anos dourados, cuja música de alto padrão ainda ressoa no silêncio das noites itapetininganas”, afirma sempre a professora Hélia Jordão Suardi, catedrática de música e que lecionou no Conservatório Musical Carlos de Campos, de Tatuí.

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