O primeiro Grito a gente não esquece

Sim, para mim o primeiro Grito de Carnaval foi inesquecível. Carnaval para maiores de 16 anos de idade bem entendido.
Foi no Clube Venâncio Ayres, na sede social, no Largo dos Amores aqui em Itapetininga. Antes, no tríduo momesco eu pulava no salão do mesmo clube no baile infantil. Mas com o tempo foi ficando infantil demais e fiquei alguns anos sem participar dos festejos que gostava tanto. Não iria dançar com crianças de dois até treze anos de idade por aí, pois eu já tinha quatorze ou quinze anos. Não tinha nenhuma graça e ao mesmo tempo não podia entrar no adulto.
No final de 1956, completei a desejada idade, dezesseis, que abriria as portas para o carnaval adulto.
Por tanto, em fevereiro de 1957 preparei-me para brincar no chamado Grito que seria no sábado de carnaval. Já possuía uma turma de amigos mocinhas e rapazes, em numero de doze. O baile noturno seria o máximo. No meu imaginário pareceria com os grandes como os do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, do Hotel Copacabana Palace, da mesma cidade, dos Artistas, do Hotel Glória, próximo a praia do Flamengo, que via e lia principalmente nas revistas cariocas como “Manchete” e “O Cruzeiro”, cuja as edições no pós-carnaval com fotos (algumas já coloridas!), das fantasias (todos os foliões a usavam), decorações monumentais, a maioria abordando a tropicalidade do país (desenhos de araras, papagaios, periquitos, onças pintadas, coqueiros, palmeiras, índios estilizados, negros batucando, enfim tudo bem Brasil), além das mulheres de beleza fantásticas, com pouca roupa, de braços levantados conclamando todos para a folia. Enfim…
Mas, no Clube Venâncio Ayres não havia nada disso. Seria exigir demais numa cidade ainda um tanto conservadora (ou muito!), extremamente católica e além de tudo, paulista (os Estados da região sudeste tiveram uma forte imigração europeia razão pelo qual não tinham os arroubos e euforias do Rio de Janeiro e do Nordeste e Norte). Os participantes venancianos com roupas cotidianas do dia-a-dia (pouca roupa nem pensar!), alguns de máscaras coloridas e até fantasiados. As mulheres, muita delas brincavam com calças compridas (shorts, jamais!) o que já era um avanço para a época.
Estávamos em 1957 e os sarongues com umbigo de fora só apareceram no início da década 1960 nesta cidade.
Mas, algo, coincidia com as fotos que mostravam os bailes cariocas: a animação. Quase todos no salão do Venâncio Ayres cadenciavam seus corpos ao som dos sambas e marchinhas, principalmente as lançadas naquele ano tocadas por uma orquestra com quinze a vinte músicos. Era bonito de se ver a alegria (pelo menos, exteriormente) reinante e auxiliada por muito confete, serpentina, lança-perfume (para ser lançado no corpo nas pessoas queridas e não no próprio nariz) e alguma bebida. Em 1957 uma das marchinhas mais tocadas foi “com jeito vai” (se não um dia a casa cai…) lançada pela cantora Emilinha Borba e o samba foi “Madureira chorou”, gravado por Joel de Almeida. Achei tudo uma delicia e no final, eu estava girando quase sozinho, pois a maioria dos componentes do grupo desvencilhou-se e foi brincar com outros.
Carnaval é assim…

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