“O retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde

Por: Daniel Paulo de Souza

Fabulações transformadoras

Ainda perplexo com a forte impressão que a pintura de seu retrato produzia em si, sobretudo com a maneira incomum como ela descortinava uma oculta efígie contrastada à fisionomia atraente refletida no espelho, um jovem pergunta-se “quais seriam mais horrendos, se os sinais do vício ou os da idade”. Naquele instante, a mocidade incólume lhe seduzia ao deleite intenso da beleza fascinante em detrimento de uma possível visão crítica das próprias ações. Certo de que “cada um de nós tem em si o céu e o inferno” como faces conflitantes, escolheu viver as febris volúpias da carne a fim de não desperdiçar o imperativo da juventude pujante.
Sob essa perspectiva se desenvolve a história de “O retrato de Dorian Gray”, romance do escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900) publicado em 1890 na Lippincott’s Monthly Magazine e posteriormente reeditado em 1891 numa versão expandida feita pelo autor em resposta às censuras que havia sofrido na ocasião do primeiro lançamento. A partir dessa segunda edição, Wilde inseriu um prefácio aforístico no qual defende a liberdade da arte e a realização desta como “aparência e símbolo”. Para confrontar a repressão a que foi submetido, ele afirma que “a arte reflete o espectador e não a vida” e que a diversidade de opiniões sobre uma obra faz dela “nova, complexa e vital”.
No entanto, cabe destacar as palavras de Maurice-Jean Lefebve quando afirma que a arte “nos acostumou a decantar a natureza” e “a abstrair estruturas” que já existiam e só passam a ser evidentes a partir do relevo que lhes confere o código artístico. Nesse sentido, a obra desvela não só o comportamento do público leitor, mas também todo o quadro que compõe a experiência humana em seus meandros e singularidades. Mesmo a história do jovem Dorian Gray e a naturalidade da escalada de suas ações sob a influência de lorde Henry confirmam esse ponto de vista. Ratificam, inclusive, a ideia de Honoré de Balzac de que o artista é “sempre a expressão de um grande pensamento e domina a sociedade”
Para Carlos Heitor Cony, o escritor irlandês estava ancorado em duas tendências literárias muito presentes na segunda metade do século XIX: a estética hedonística de Walter Horatio Pater e o gênero fantástico praticado por Stevenson, Hoffmann, Goethe e outros. Dessa conjuntura, conforme aponta Cony, há personagens representativos de ambas as tendências, como lorde Henry, o subversivo da moralidade, o “Conselheiro Acácio às avessas”, adepto dos prazeres e da fruição incondicional deles, e Dorian Gray, o símbolo de uma inocência juvenil que, na necessidade de preservação da beleza, aceita uma espécie de pacto faustiano em que a alma perece a favor do ganho mundano.
O enredo do livro começa no ateliê de Basil Hallward, o pintor que realizou o retrato de Dorian e apresentou o resultado ao amigo lorde Henry Wotton, o “bon-vivant” que, por intermédio da pintura, começou a nutrir admiração pelo jovem e a projetar nele o próprio espírito perspicaz e resoluto. Basil, por sua vez, defende a criação do belo na arte, a expressão da inteligência e da sensibilidade, a abstenção da vida do artista nas suas criações, embora reconheça que Dorian o fez perverter esse princípio ao impulsioná-lo a fomentar uma verdadeira “idolatria artística”, a colocar tudo de si naquele quadro e a enxergar no moço “uma nova modalidade de estilo”, um Adônis cuja essência carrega todo o ideário de “perfeição peculiar do espírito helênico”. Por esses motivos, o pintor suplica a Henry não macular a pureza dessa personalidade inspiradora.
A vontade de Basil, entretanto, não foi respeitada, visto que o hedonismo defendido por lorde Henry chegou a Dorian Gray assim que ambos se conheceram. Como essa filosofia do aristocrata inglês, um arguto defensor do prazer como finalidade última da existência, dispunha de forte apelo, reverberou no coração do protagonista e o fez mudar de conduta. Henry, para quem a “beleza acaba onde principia a expressão inteligente”, afinal “definir é limitar”, valorizava o instante, as paixões, logo insistia que “nada pode curar a alma senão os sentidos” e vice-versa. Devotado a essa maneira de viver e extasiado pela formosura do jovem Gray, incita-o a pensar semelhante e a adotar o desígnio de que a beleza é a “forma de gênio” mais “elevada até do que o gênio, pois dispensa explicação”.
Fabio Akcelrud Durão salienta que este romance, conforme insere os conflitos de maneira gradual, é “cheio de pontas soltas que fazem sentido” a partir de uma “sofisticada reflexão literária” que envolve elementos distintos, tais como o desejo, a identidade e a estética. Não à toa o ingresso de Dorian Gray no dandismo a fim de se tornar, na opinião de Henry, o “símbolo visível” de “um novo hedonismo” ocorreu pela experimentação da autoimagem em estágios narrativos crescentes. Primeiro, ele foi um modelo tímido e desconhecido de uma pintura; segundo, foi apresentado à ideia de um culto ao prazer que passa pela satisfação das sensações; terceiro, apercebeu-se da própria perfeição dos traços refletida e exaltada na obra de Basil; quarto, apaixonou-se pela bela atriz Sibyl Vane após contatos supérfluos e calcados no deslumbramento físico e exterior; quinto, decepcionou-se com a fragilidade da paixão e se entregou à indiferença e à promiscuidade.
No contexto sequencial dessa “história complexa”, de acordo com definição de Durão, três fatos pavimentam a ascensão da iniquidade no personagem de Dorian e, consequentemente, a anulação de sua identidade para o nascimento de outra, mais cruel e egocêntrica: a indiferença ao suicídio de Sybil, o pacto de deterioração da imagem da pintura “como emblema visível de sua consciência” (em favor de uma juventude perceptível e imaculada) e a leitura de um livro enviado por lorde Henry. Em síntese, a morte da moça conseguiu desconstruir nele uma excitação imaginária antes idealizada. O trato sobrenatural garantiu que a linda adolescência do senhor Gray seria preservada e que os crimes da alma seriam impingidos somente ao quadro, cuja imagem seria o sinal perene da “degradação do pecado” e do mal que o homem faz a si. A história do escrito “venenoso” estava repleta de uma “vida sensual” lapidada em “termos de filosofia mística”.
Infelizmente, a consumação dessa existência perniciosa também foi viabilizada pelas relações superficiais da alta sociedade londrina e pela rotina de almoços, jantares ou recepções que favorecessem o desfile da frivolidade. Já que desbravara o novo mundo e o assumira na pele, certo de que, com isso, manteria a mocidade intacta, Dorian entregou-se a todo tipo de vício e de concupiscência e protagonizou assassinato, morte e desvirtuação dos mais próximos, como Adriano Singleton, nos “antros horríveis de Blue Gate Fields”. Nesse ínterim, desonrou a sua reputação e viu o horror da imagem da pintura acentuar-se com uma espécie de deturpação que “vinha de dentro”.
Sem conhecer efetivamente a si, o jovem Dorian apostou num simulacro, numa ilusão e numa projeção errôneo do seu “eu”. Imaginou que a liberdade do desejo seria ilimitada, inconteste, e não lhe traria consequências. Mas os infortúnios, ao cabo, mostraram-lhe o contrário.
Platão, no diálogo chamado “Alcibíades I”, traz uma discussão entre Sócrates e Alcibíades, pretendente à política ateniense, justamente sobre a importância da máxima oracular “conhece-te a ti mesmo”. Grosso modo, em suas falas, o sábio grego submete o interlocutor à conclusão de que o verdadeiro conhecimento de si só pode provir da alma e, portanto, do desapego dos sentidos e das aparências, visto que somente nela reside a esfera do saber e da sensatez. Nas palavras de Sócrates, “segundo concordamos, o conhecer a si mesmo é a sensatez”. Qualquer esforço diferente é equivocado.
Após uma série de contratempos, o medo enfim levou Dorian Gray a perceber que ele se concentrou demais num “eu” ilusório e, por isso, a sua “personalidade se tornou um peso”. Como o “destino não costuma enviar arautos”, cabe à alma o exercício da vigilância para superar os anseios vaidosos da mera fantasia sensitiva.

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