Perdas culturais

Nestes tempos sombrios do novo coronavírus e de incertezas políticas de Brasília, a maioria delas operadas pelo próprio presidente de plantão, tivemos, no âmbito da Cultura brasileira, o passamento de três personalidades que encantaram (o termo é este) o país. No último treze de abril falece o cantor, compositor e músico Moraes Moreira (ou Antônio Carlos Moreira Pires) no Rio de Janeiro onde vivia, aos setenta e três anos. Baiano de nascimento, Moraes Moreira desde jovem, ainda, na sua cidade natal, Ituaçu, já executava em seu violão e sua sanfona (é lógico que Luiz Gonzaga foi fonte de inspiração) música popular brasileira como o samba, forró, baião, frevo, choro e até música erudita. Criou um som autenticamente nacional (utilizando até o rock).

No carnaval de salvador, Bahia, foi um dos criadores do trio elétrico. Não havia folguedo baiano sem Moraes Moreira. Já no Rio de Janeiro, na década de 1970, integrou o grupo que mais tarde seria conhecido como Novos Baianos (ao lado de Pepeu Gomes, Baby Consuelo, Paulinho Boca de Cantor e Luiz Galvão) que lançou um LP de título “Acabou chorare” e que segundo a Wikipédia: – “a revista brasileira “Rolling Stones” classificou o disco como o maior álbum brasileiro de todos os tempos”, até então. Neste álbum, uma das canções, foi “Brasil Pandeiro” revivendo um dos maiores compositores brasileiros, injustamente esquecido, Assis Valente. Moraes Moreira compôs entre outras, “Pombo correio” e “Preta, pretinha” como também “Festa do interior”. Canções com ritmos irresistíveis. Um de seus filhos, David Moraes, é considerado um dos maiores violonistas do Brasil.

Já no último quatro de maio, nos deixaram Flávio Migliaccio, ator e Aldir Blanc, compositor. O paulistano Flávio parte, com oitenta e cinco anos de idade e que vocês conhecem tanto como personagem de dezenas de novelas, minisséries, séries da Tv Globo, também em filmes e os bem mais velhos lembram dele como um dos fundadores do Teatro de Arena, próximo a Igreja da Consolação, em São Paulo, capital. Migliaccio participou com o elenco do Arena, em 1958, de uma das mais consagradas peças do teatro brasileiro, “Eles não usam black-tie”, de Gianfrancesco Guarneri quando mulheres e homens brasileiros estão retratados fielmente no palco (o drama se passa numa favela carioca). Até então os personagens brasileiros eram mostrados nos palcos como se fossem europeus.

A partir de “Eles não usam black-tie” começa uma revolução na dramaturgia nacional. Em 1977 Flávio Migliaccio trabalha no filme “Terra em transe” de Glauber Rocha, considerado o melhor filme do cinema nacional e em 1972 na novela “O casarão” da Tv Globo, revolucionária por apresentar três épocas diferentes numa só novela. Encontrado morto (suicídio) em seu sítio em Rio Bonito, estado do Rio Flávio Migliaccio deixou uma nota escrita: – “me desculpem, mas não deu mais. A velhice, este país, o caos como tudo aqui. A humanidade não deu certo…” (entre outros).
Na mesma data (quatro de maio) deixou-nos o compositor carioca (tijucano e salgueirense) Aldir Blanc, autor, dentre outras, de “O bêbado e a equilibrista” na (imortal) interpretação de Elis Regina. Dele, escreveu o avareense e interprete Juca Novaes coordenador do grupo de cantores paulistanos “Trovadores Urbanos”.

Juca é filho da itapetiningana Maria Margarida Piedade e do saudoso Paulo Novaes ex-prefeito de Avaré e ex-deputado estadual. Texto de Juca: – “No momento mais engarrafado da vida do nosso país, Aldir Blanc foi embora. Vítima de uma “gripezinha” que infelizmente, está levando alguns dos nossos melhores como ele. Deixa uma imensa obra musical monumental, a maior parte delas tratando de crônicas insuperáveis de um Brasil que está deixando de existir”.

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