Primeiras Letras

Quando eu tinha seis anos, minha mãe, Anna Lopes, me colocou numa escola particular para que eu aprendesse as prmeiras letras. Antes de sair de casa, ela leu comigo o Salmo cento e vinte um que assim começa:-“Elevo os meus olhos para os montes: de onde me virá o socorro? O meu socorro vem do Senhor que fez o céu e a terra.” Termina o salmista o texto com um desejo: “O Senhor guardará a tua saída e a tua entrada, desde agora e para sempre”.
Na frente da escola, ela me abraçou e beijou-me, como se eu fosse partir para um país desconhecido. Eu chorei, quando a professora me pegou pela mão e foi me levando para o vestíbulo do saber. Lembro-me que ainda olhei para trás e vi a minha mãe enxugando algumas lágrimas. Eu me separava pela primeira vez da minha mãe. Ela, verdadeiramente, me amava!
Foi difícil aprender as primeiras letras que falavam da pata nada. Depois veio o Caminho Suave, As Lições do Tio Emilio. Em casa comecei a ler a Revista da Escola Dominical e a Bíblia. Gostava de ouvir as histórias do Velho Testamento e do Novo contadas, usando o flanelógrafo. As figuras de Abraão, Isaque e Jacó grudavam na flanela. Tudo isso para mim era novidade e causava admiração, como se fosse uma mágica. E o livro sem palavras? Como gostava de cantar e cantava com entusiasmo, vendo na minha imaginação as ruas de ouro do reino celestial. Foi nessa época que decorei o Salmo vinte e três, noventa, cento e vinte um, bem como muitos versículos do Novo Testamento.
Minha mãe dizia que eu ia ser Pastor e precisava ser culto como o Rev. Armando Pinto de Oliveira e o Rev. Raphael Pages Camacho, sendo que o primeiro era português e o segundo espanhol.
Um dia, cheguei em casa e não sabia resolver um problema de Aritimética. Minha mãe leu-o em voz alta e depois me perguntou: – Entendeu? Com a leitura pausada que ela fez, consegui entender e resolvi facilmente. Depois ela me disse, aconselhando-me: – Leia sempre o problema e procure entender, pois tudo é fácil. Terminou, citando Paulo, o apóstolo: “Tudo posso naquele que me fortalece.” Ela queria que eu incorporasse o texto paulino. Disse ainda que Deus iria me dar entendimento, pois a sabedoria é dele e concede a quem ele quer. Leu Provérbios dois e destacou este versículo: “Porque o Senhor dá sabedoria e da sua boca vem a inteligência e o entendimento. Ele reserva a verdadeira sabedoria para os retos; é escudo para os que caminham na sinceridade.”Lia e explicava as palavras difíceis que não faziam parte ainda do meu vocabulário.Minha mãe queria que eu fosse Pastor e não mercenário e exaltava o amor, como a virtude sublime. Aprendi que deveria amar, perdoar e fazer boas obras. Pastor para cuidar das ovelhas e Professor para não ser pesado para ninguém. O apóstolo Paulo fazia tendas e eu deveria ensinar o amor de Deus. Quando eu ia iniciar a adolescência, minha mãe morreu com trinta e oito anos, mas as suas lições ficaram.

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