Um carteiro quase poeta

No famoso filme, exibido não há muito tempo, um poeta (Pablo Neruda) residindo em lugar ermo e quase solitário recebia o carteiro enlevando-o através de versos esclarecedores e dissertando sobre literatura. Embasbacado e surpreso, admirando-se com a elevada cultura do grande vate chileno, o carteiro (semianalfabeto) se extasiava e chegava às lágrimas pelo encontro que se realizava invariavelmente e curtos prazos.
Ao contrário, em Itapetininga, o conhecido carteiro Napoleão, em épocas um pouco mais distantes, instruía, exibia e declamava poemas de sua autoria, não a poetas, mas a uma grande parte de moradores da cidade que recebiam todo tipo de correspondência.
Napoleão, o “Carteiro”, recebido com alegria por senhores, moças e rapazes à porta de suas respectivas residências, daqueles anos, talvez, no íntimo, cantarolassem a famosa música interpretada por Isaura Garcia:
“Quando o carteiro chegou e meu nome gritou com uma carta na mão/Antes surpresa tão rude/ não sei como pude chegar ao portão/ Ele então regozijava-se em ser tão aguardado e sua satisfação extrapolava todos personagens os limites imagináveis. Ao proceder a entrega de correspondência ou outra encomenda similar dialogava em termos elevados com o destinatário sobre assuntos vários, desde a situação econômica do mundo até comentários dos mais simples sobre a cidade. Demonstrava, com isso, e sem qualquer sinal de arrogância, vasto conhecimento, relevando grau elevado e surpreendendo a todos pela sua cultura.
Napoleão Tavares, casado com Marina de Melo Granco, de nobre família, por 37 anos consecutivos serviu os “Correios” como estafeta, primeiramente na capital paulista e depois em Itapetininga na agência situada preliminarmente na rua Saldanha Marinho agora ocupada pela foto Keni, e em seguida no atual prédio da rua Barbosa Franco, inaugurado em 1950.
Trabalhou durante mais de 3 décadas sob a chefia dos agentes Benjamin Dia Tatit, Carlos Afonso e José Nunes, entre outros. Toda correspondência e encomendas eram enviadas através da ferrovia, sendo da estação local transportada para a agência da cidade. Toda distribuição era feita pelos carteiros. Napoleão, diferente de seus colegas, percorria a cidade em uma carrocinha adaptada em uma bicicleta, engenho criado por ele para viabilizar com rapidez as entregas.
Falava, inclusive, seis línguas e era assíduo leitor de jornais diários, assim como avidamente devorava livros, principalmente sobre biografias das grandes personalidades do globo. Deliciava ouvintes que se reuniam em torno dele, com histórias várias ou então esclarecendo dúvidas a respeito de alguma matéria, a estudantes. Zécaborba, comerciante, e seu vizinho na Vila Nova, recorda-se que Napoleão, era muito respeitado pela sua cultura e sempre consultado a respeito dos inúmeros temas colocados em pauta.
Com prole numerosa – 12 filhos – Napoleão se desdobrava, paralelamente, em outras atividades para complementar o orçamento caseiro. Eletricista, técnico em conserto de eletrodomésticos, confeiteiro, além de fabricar a famosa “geléia mocotó”, eram suas outras especialidades com vasta clientela em várias partes da cidade.
Napoleão Tavares, um senhor trabalhador, antes de exercer as funções de carteiro, trabalhou em São Paulo no Instituto de Cegos “Padre Chico e ingressou nos “Correios” por meio de exame de aptidão profissão que desempenhou como amor e competência comprovada.

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