Um pouco da moda que passou

Um vento, um tanto gélido, em moderada velocidade, em tarde outonal, levantou a saia de uma jovem, que rapidamente segurou-a para evitar uma maior exposição interior. Não era um filme da Marilyn Monroe. Era o mês de junho, fato ocorrido há mais de meio século na rua Monsenhor Soares, próximo à extinta charutaria Bittar.
Observado por dois jovens, pós-adolescentes, a moçoila, um tanto envergonhada, seguiu seu caminho, apressada, sem olhar para trás. Encontrava-nos na época, e ela talvez não soubesse disso, que as meninas e as senhoras de Itapetininga, tanto da “fidalgal” Peixoto, quanto do estimado Ginazinho, colocavam chumbinhos na barra das saias para impedir que elas flutuassem aos ventos.
A moda constituída naquela época representava a luta do forte contra o fraco, pois os mais poderosos ditavam as regras a serem seguidas. No entanto, anos depois, a maioria delas teve que arcar ao comando das minissaias, como as artistas de cinema, do teatro e do início da televisão no Brasil. Comum e habitual, portanto, era o uso da minissaia, e quanto aos ternos masculinos, confeccionados com elegância nas alfaiatarias locais, comandadas pelos mestres Ambrósio, Gimenez, Carlos, Edil Lisboa, Santos, Ginez, Larizati, Zaidan, Manolo entre outros. Os cavalheiros, como Hermes Quarentei, Fernando Rios, Astor Barth, Celso Carvalho, Abílio Abib, seguiam os filmes de Hollywood, estrelados por Tyrone Power, Gary Grant, Clark Gable, Gary Cooper e James Stewart.
Não nos recordamos de termos passado, naquela época, pela predominância dos cabelos longos na moda. Alguns entendem não parecer uma medida democrática, porque nem todas as mulheres os possuem. A moda é ditadora, autoritária. Obrigá-las, diz conhecido cabelereiro desta cidade, muito competente “para entrar nessa moda depende do seu tipo de cabelo, coisa difícil de se encontrar em todas as raças”.
As jovens atualmente se vestem caprichosamente, seja de qualquer segmento social, “mas seus cabelos longos”, parece que destoam de seu vestuário, formando um entrechoque temporal”, segundo análise de um estilista local. Massificou-se a moda, o autoritarismo da moda exige a democratização do mercado, espalha-se para todas as classes sociais, embora as marcas que surgiram diferenciariam os modelos.
Lojas de finíssimas e modernas confecções espalham-se em vários pontos de Itapetininga, com tudo que há de mais atual, moderníssimo do mundo feminino, para todos os gostos, todos os bolsos e, principalmente, em suaves prestações a qualquer cliente. São estabelecimentos locais que se equiparam às sofisticadas existentes nos locais mais nobres da capital paulista.
Não como antes, quando as roupas eram confeccionadas por costureiras que trabalhavam na própria residência das clientes, ou então nas oficinas próprias. Existiam diversos estabelecimentos deste gênero. Costureiras famosas eram as conhecidas Esther, Marina, Paula de Queiroz, Dona Maria de seu Juquinha, Dona Cida França, Dona Maria Célia, Dona Thereza, entre tantas outras “batalhadoras que alegraram senhoras e senhoritas e, até homens e crianças que se viam inteiramente com a “boa confecção daquelas artistas da tesoura”.
Fato muito comentado e de grande repercussão foi quando a filha do médico Dr. Braga, Neusa Braga, adquiriu seu vestido de noiva, na então rua Santa Ifigênia, considerada a mais “chique” da capital paulista, naquela ocasião. Considerou-se o ato matrimonial como o “aurifulgente” e uma das mais brilhantes recepções já havidas na cidade.
Em tempo: Há 55 anos, encontram-se casados, e bem casados os protagonistas da cena do vento no vestido, na rua Monsenhor Soares.

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