Vida rural

Houve um tempo em que residir na zona rural era incômodo e desconfortável.

A comunicação era difícil, e só um ou outro residente possuía radio amador. A solução era enviar recados pelos vizinhos que iam à cidade, ou pelos compradores de produtos, que vez ou outra apareciam no lugar.

Conseguir imagem e som, da TV, era um complicado exercício de deslocar o bambu ou vara que continha a antena. O rádio permitia a previsão do tempo, pois reproduzia todos os raios do percurso, da sede da emissora ao sítio.

As roupas eram divididas em dois tipos, uma de serviço, puída, para uso no local, e outra “de ver Deus”, para idas ao centro urbano. Botinas que deixavam um rastro de terra e folhas eram deixadas no terraço, ou na porta da cozinha.

Algumas poucas residências na zona rural ainda guardam o hábito de assistir TV sentados, e a hierarquia da família pode ser notada pelos que conseguem um lugar no sofá.

O dia, nos sítios, começa bem antes do nascer do sol, anunciado pelo som da bicharada e pelo radinho portátil do vizinho.

Uma das características da vida no campo é a rotina, inclusive de conserto da bomba d´água e religação do transformador.

A segurança só era ameaçada quando alguém com feição estranha aparecia, pedindo água ou uma informação qualquer. Na falta de campainhas, cachorros anunciavam a chegada do estranho.

As galinhas do entorno avisavam a presença de alguma cobra nas redondezas, e o alvoroçar de formigas anunciava uma chuva próxima. Na zona rural, o dinheiro costuma ser pouco, mas há fartura de alimentos.

Os grandes facilitadores da vida rural foram o telefone celular e a antena parabólica. O celular, na maioria dos casos, funciona em um ou outro local do imóvel, estando seu uso relacionado a caminhadas, não raro ao alto do morro.

Poucos reconhecem o mérito e abrangência da Voz do Brasil, ouvida como infalível noticiário das 19:00 horas. O programa relatava as boas notícias do dia, e apresentava um país de poucos problemas e muitas soluções.

A zona rural, até hoje, funciona como um paraíso, para idosos, crianças e fugitivos em geral. É um ambiente informal, que incentiva a introspecção.

Jovens, não raro, ficam entediados com a rotina e mesmice da vida rural, e são poucos os que não sonham com a agitação e convivência urbanas. Buscam estudos e oportunidades de trabalho.

A maioria dos imóveis rurais de hoje conta com os mesmos equipamentos disponíveis na zona urbana, inclusive, e de vez em quando, com internet. A vida no campo, hoje, é bem mais fácil e confortável.

Contudo, a insegurança chegou o campo, e com ela a intranquilidade.

Também pairam, como ameaças, grupos ideológicos invasores, e, em algumas regiões, descendentes de indígenas. Se algum descendente indígena teimar em dizer que seu tataravô defecava sob a árvore que ladeia a sede, não faltarão estudiosos atestando que a secular e laboriosa ocupação branca ofende a cultura e tradição aborígene. É o começo do fim !

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