Que uma mentira todos contam, isso é verdade. Mas há um período em que algumas mentiras tem até horário eleitoral na televisão. Neste período de eleições, alguns candidatos exageram na dose e caem no descrédito. Se o candidato cita diversas obras que irá realizar, por que se recusam a informar o custo de tal sonho? Números passam longe. Se fossem efetivá-los precisariam de três orçamentos públicos. De duas, uma: ou é mentira ou terá aumento de impostos. Elevar impostos é tema impopular. Verdade demais para um período eleitoral.
Mas deixando de lado os políticos, a verdade é que todos mentem. O conceito básico de mentira pressupõe dizer a alguém algo que é contrário ao que se pensa, percebe ou acredita. Mas isso significa dizer que este alguém realmente sabe o que pensa, quer ou acredita. Para agradar alguém, escapar de uma discussão, concorda-se para ter uma tarde sossegada. Embora seja repelida por todos, ela – a mentira – se mantém viva em nossa sociedade.
O filósofo chinês Confúcio recomendava que se apelasse para esse antiquíssimo recurso apenas quando a verdade prejudicasse uma família ou a nação. Como nem todos seguem o sábio chinês no limite observado, muitos consideram o argumento válido em situações embaraçosas, como salvar um emprego, um relacionamento ou não magoar um filho.
Mentiras leves são aceitas e em muitos casos evitam constrangimentos desnecessários. Uma pesquisa diz que uma pessoa mente em uma a cada quatro interações sociais: outra, que mesmos aqueles que dizem não mentir falam uma inverdade a cada dez minutos: uma terceira afirma que contamos de 10 a 200 mentiras por dia!
Duas razões para mentir
Para o professor de psicologia da USP Christian Dunker, há duas razões básicas para mentir: para ter e para ser. “Mentimos porque queremos passar do desejo de reconhecimento ao reconhecimento do desejo (quando o outro reconhece nosso desejo e mente para atendê-lo, no caso da mentira branca)”, afirma Dunker.
Mas também o contrário, quando reconhecemos um desejo e queremos algum reconhecimento como é o caso da mentira maldosa. Num extremo, a mentira vira uma compulsão quando a pessoa mente sem saber por que, e as mentiras se tornam tão absurdas que não mantêm nenhuma relação com a verdade. Nesse contexto, a área do julgamento não é ativada normalmente no cérebro do mentiroso.
Homens e Mulheres
Ele acrescenta que há uma diferença entre os homens e mulheres neste mundo de inverdades. Dunker afirma que os homens pensam no objetivo do ato de mentir, qual a finalidade: já as mulheres enxergam o porquê, consideram a razão mais importante.
Se um adulto já conhece os caminhos que levam a mentira, já era de esperar que os pais entendessem quando o filho utiliza dessa artimanha. Psicólogos afirmam que os pais dão valor a verdade. Por exemplo, os meios corretos de estudar e ir bem numa prova marca positivamente a vida do filho.
A cola num exame dará outra característica. Pode até tirar uma nota alta, mas não pode medir seu conhecimento em determinado assunto. O uso da mentira é um sinal que algo vai mal na vida ou na cabeça do jovem. O diálogo familiar à mentira faz bem e tem que ser colocado na mesa, às claras e sem rodeios.
Até Freud
Até o pai da psicologia moderna, Sigmund Freud afirma que a vida seria insustentável se descartássemos a mentira. Imagine a quantidade de brigas e desavenças que aconteceriam se você falasse a verdade o tempo todo. Mentimos para enfrentar a realidade e para atrair a atenção do outro. Também criamos novas versões, ficções e deturpações da realidade que cumprem um papel psíquico para nós mesmos.
Sinais da mentira
Pesquisas tentam identificar os sinais da mentira. Cientistas americanos pediram a um grupo de estudantes de enfermagem — uma profissão cujos praticantes são de certo modo treinados para mentir — que dissessem ora a verdade, ora a mentira sobre alguns filmes. Uma câmara oculta tratava de flagrar os sinais mentirosos. O mentiroso tende a tirar as mãos de cena, afundando-as nos bolsos, por exemplo, para evitar que desmintam a mentira que sai da boca.
Em outras situações escondiam a verdade ao mexer com os cabelos, passar a mão no rosto e se apoiar com a mão no queixo. Tentam encobrir parcialmente a boca e tocar o nariz. Finalmente, as enfermeiras mentirosas se mexiam mais nas cadeiras, como crianças que querem escapar de algum lugar.
Na verdade, o que todos querem é escapar desse desconforto psicológico que é enganar o próximo. Nas relações amorosas, diz o psicoterapeuta paulista Jacob Pinheiro Goldberg, a mentira costuma ser confundida com a fantasia, pois ambos os processos servem à mesma finalidade: suavizar as situações de tensão.
Aristóteles, o pensador grego, só aceitava duas maneiras de mentir: diminuindo ou aumentando uma verdade. O teólogo Santo Agostinho, no século IV, resolveu complicar o assunto descrevendo seis tipos diferentes de mentira: a que prejudica alguém, mas é útil a outro; a que prejudica sem beneficiar ninguém; a que se comete pelo prazer de mentir; a que se conta para divertir alguém; a que leva ao erro religioso; e finalmente, a que ele considerava a “boa” mentira, que salva a vida de uma pessoa.
Para as modernas ciências do comportamento, seja qual for a história falsa, a realidade é uma só: mentira é aquilo que se queria que fosse verdade.















